sábado, 28 de maio de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - EPÍLOGO




Mário de Andrade - Macunaíma - EPÍLOGO



Acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolo-mangolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles lugares aqueles campos furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aqueles matos misteriosos, tudo era a solidão do deserto... Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera.
Nenhum conhecido sobre a terra não sabia nem falar na falta da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem que podia saber do herói? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda cabeça do Pai do Urubu e Macunaíma era a constelação da Ursa Maior. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia a beira-rio do Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha e Vei mandara as filhas visar o passe das estrelas. O deserto tamanho matava os peixes e os passarinhos de pavor e a própria natureza desmaiara e caíra num gesto largado por aí. A mudez era tão imensa que espichava o tamanhão dos paus no espaço. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz da ramaria:
— Currr-pac, papac! currr-pac, papac!... O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um guanumbi e boleboliu no beiço do homem:
— Bilo, bilo, bilo, lá... tetéia! E subiu apressado pras árvores. O homem seguindo o vôo do guanumbi, olhou pra cima.
— Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu. Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra ele. Falou:
— Dá o pé, papagaio.
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com melde-pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virará sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma imperador. E só
o papagaio no silêncio do Uraricoera pre- servava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.









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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XVII




Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XVII




URSA MAIOR


Macunaíma se arrastou até a tapera sem gente agora. Estava muito contrariado porque não compreendia o silêncio.
Ficara defunto sem choro, no abandono completo. Os manos tinham ido-se embora trans- formados na cabeça esquerda do urubu-ruxama e nem siquer a gente encontrava cunhas por ali. O silêncio principiava cochilando a beira rio do Uraricoera. Que enfaro! E principalmente, ah!... que preguiça!... Macunaíma foi obrigado a abandonar a tapera cuja última parede trançada com palha de catolé estava caindo. Mas o impaludismo não lhe dava coragem nem pra construir um papiri. Trouxera a rede pro alto dum teso onde tinha uma pedra com dinheiro enterrado por debaixo. Amarrou a rede nos dois cajueiros frondejando e não saiu mais dela por muitos dias dormindo caceteado e comendo cajus. Que solidão! O próprio séquito sarapintado se dissolvera. Não vê que um ajuru-catinga passara muito afobado por ali. Os papagaios perguntaram pro parente onde que ia.
— Madurou milho na terra dos Ingleses, vou pra lá!
Então todos os papagaios foram comer milho na terra dos Ingleses. Porém primeiro viraram periquitos porque assim, comiam e os periquitos levavam a fama. Só ficara um aruaí muito falador. Macunaíma se consolou pensamenteando: O mal ganhado, diabo leva... paciência. Passava os dias enfarado e se distraía fazendo o pássaro repetir na fala da tribo os casos que tinham sucedido pro herói desde infância. Aaah ... Macunaíma bocejava escorrendo caju, muito mole na rede, com as mãos pra trás fazendo cabeceiro, o casal de legornes empoleirado nos pés e o papagaio na barriga. Vinha a noite. Aromado pelas frutas do cajueiro o herói ferrava no sono bem. Quando a arraiada vinha o papagaio tirava o bico da asa e tomava o café da manhã devorando as aranhas que de-noite fiavam as teias dos ramos pro corpo do herói. Depois falava:
— Macunaíma! O dorminhoco nem se mexia.
— Macunaíma! ôh Macunaíma!
— Deixa a gente dormir, aruaí...
— Acorda, herói! É de-dia!
— Ah... que preguiça!.. .
— Pouca saúde e muita saúva, Os males do Brasil são!...
Macunaíma dava uma grande gargalhada e cocava a cabeça cheia de pixilinga que é piolho-de-galinha. Então o papagaio repetia o caso aprendido na véspera e Macunaíma se orgulhava de tantas glórias passadas. Dava entusiasmo nele e se punha contado pro aruaí outro caso mais pançudo. E assim todos os dias.
Quando a Papaceia que é a estrela Vésper aparecia falando pras coisas irem dormir, o papagaio zangava por causa da história parando no meio. Uma feita ele insultou a estrela Papaceia. Então Macunaíma contou:
— Não insultaela não, aruaí! Taína-Cã é bom. Taína-Cã que é a estrela Papaceia tem pena da Terra e manda Emoron-Pódole dar o sossego do sono deste mundo pra todas essas coisas que podem ter sossego porque não possuem pensamento que nem nós. Taína-Cã é indivíduo também... Relumeava lá no campo vasto do céu e a filha mais velha do morubixaba Zozoiaça da tribo carajá, solteirona chamada Imaerô falou assim:
— Pai, Taína-Cã relumeia tão bonito que eu quero me amulherar com ele.
Zozoiaça riu bem por causa que não podia dar Taína-Cã de casamento pra filha velha não. Vai, de-noite veio descendo o rio uma piroga de prata, um remeiro saltou dela, bateu no poial e falou pra Imaerô:
— Eu sou Taína-Cã. Escutei vosso pedido e vim numa piroga de prata. Casa comigo por favor?
— Sim, ela fez contentíssima. Deu a rede pro noivo e foi dormir com a mana mais nova se chamando Denaquê. No outro dia quando Taína-Cã pulou da rede todos se sarapantaram. Era uma coroca enrugado enrugado,
tremelicando tanto feito a luz da estrela Papaceia. Vai, Imaerô falou:
— Cai fora, coroca! Vê lá si vou casar com velho! Pra mim há-de ser um moço mui brabo mucudo e de nação carajá!
Taína-Cã ficou jururu jururu e principiou imaginando na injustiça dos homens. Porém a filha mais nova do morubixaba Zozoiaça teve pena do coroca e falou:
— Eu caso com você... Taína-Cã brilhou de gozo. Ficaram ajustados. Denaquê preparando o enxoval cantava noite e dia:
— Amanhã por estas horas, furrum-fum-fum... Zozoiaça respondia:
— Eu também com vossa mãe, furrum-fum-fum ... Depois que se acabaram os dedos das vossas mãos, papagaio, que são de espera pra noivo, na rede trançada
por Denaquê se brincou dança de amor, furrum-fum-fum. Nem bem o dia estava rompendo a barra, Taína-Cã pulou da rede e falou pra companheira:
— Vou derrubar mato pra fazer roçado. Agora você fica no mocambo e nunca não vai na roça me espiar.
— Sim, ela fez. E ficou na rede, matutando gozada naquele velhinho esquisito que dera pra ela a noite mais gostosa de amor que a gente imagina. Taína-Cã derrubou mato, botou fogo em todos os macurus de formiga e preparou a terra. Naquele tempo inda a
nação carajá não conhecia as plantas boas. Era só peixe e bicho que carajá engolia. Na outra madrugada Taína-Cã falou pra companheira que ia buscar sementes pra semear e repetiu a proibição.
Denaquê ficou deitada na rede inda um bocado, matutando nas gostosuras valentes das noites de amor que o bom do coroca dava pra ela. E foi fiar.
Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira docorgo esperou assuntando a água. Daí a pouco vieram vindo no pêlo da agüinha as sementes do milho cururuca, o fumo, a maniveira, todas essas plantas boas. Taína-Cã apanhou o que passava, desceu do céu e foi no roçado plantar. Estava trabucando na Sol quando Denaquê apareceu. Era por causa que ela de sodosa quis ver o companheiro dando gostosuras tão valentes pra ela nas noites de amor. Denaquê deu um grito de alegria. Taína-Cã* não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo e de nação carajá. Fizeram um macio de fumo e de maniva e brincaram pulado na Sol.
Quando voltaram pro mocambo muito se rindo um pro outro, Imaerô ficou tiririca. Gritou:
— Taína-Cã é meu! Foi pra mim que ele veio do céu!
— Sai azar! que Taína-Cã falou. Quando eu quis você não quis, pois agora brinque-se! E trepou na rede com Denaquê. Imaerô desinfeliz suspirou assim:
— Deixe estar jacaré, que a lagoa há-de secar!... E saiu gritando pelo mato. Virou na ave araponga que grita amarelo de inveja no quiriri do mato diurno. Desde então por causa da bondade de Taína-Cã é que Carajá come mandioca e milho e possui fumo pra se animar.
E tudo o que Carajá carecia, Taína-Cã ia no céu e voltava trazendo. Pois não é que Denaquê, de ambiciosa, deu pra namorar com todas as estrelinhas do céu! Deu sim, e Taína-Cã que é a Papaceia enxergou tudo. Isso, até se orvalhou de tão triste, pegou nos teréns e foi-se embora pro vasto campo do céu. Ficou lá, trouxe mais nada não. Si a Papaceia continuasse trazendo as coisas do outro lado de lá, céu era aqui, nosso todinho. Agora é só do nosso desejo. Tem mais não. O papagaio dormia.
Uma feita janeiro chegado Macunaíma acordou tarde com o pio agourento do tincuã. No entanto era dia feito e acerração já entrara pro buraco... O herói tremeu e apalpou o feitiço que trazia no pescoço, um ossinho de piá morto pagão. Procurou o aruaí, desaparecera. Só o galo com a galinha brigando por causa duma aranha derradeira. Fazia um calorão parado tão imenso que se escutava o sininho de vidro dos gafanhotos. Vei, a Sol, escorregava pelo corpo de Macunaíma, fazendo cosquinhas, virada em mão de. moça. Era malvadeza da vingarenta só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas de luz. A mão de moça vinha e escorregava tão de manso no corpo... Que vontade nos músculos pela primeira vez espetados depois de tanto tempo! Macunaíma se lembrou que fazia muito nãobrincava. Água fria diz que é bom pra espantar as vontades... O herói escorregou da rede, tirou a penugem de teia vestindo todo o corpo dele
e descendo até o vale de Lágrimas foi tomar banho num sacado perto que os repiquetes do tempo-das-águas tinham virado num lagoão.
Macunaíma depôs com delicadeza os legornes na praia e se chegou pra água. A lagoa estava toda coberta de ouro e prata e descobriu o rosto deixando ver o que tinha no fundo. E Macunaíma enxergou lá no fundo uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunha lindíssima era a Uiara.
Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói, parecia que dizia — Cai fora, seu nhonhô moço! e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca umideceu:
— Mani!. . . Macunaíma queria a dona. Botava o dedão n'água e num átimo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma sentia o frio da água, retirava o dedão.
Foi assim muitas vezes. Se aproximava o pino do dia e Vei estava zangadíssima. Torcia pra Macunaíma cair nos braços traiçoeiros da moça do lagoão e o herói tinha medo do frio. Vei sabia que a moça não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Quê boniteza que ela era!... Morena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos cabelos curtos negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela só se mostrava de frente e festava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava.. E o herói indeciso, vai-não-vai. Sol teve raiva. Pegou num rabo-de- tatu de calorão e guascou o lombo do herói. A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fechando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num
chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia.
Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigara muito lá no fundo, Ficou de bruços um tempão coma vida dependurada nos respiros fatigados. Estava sangrando com mordidas pelo corpo todo, sem perna direita, sem os dedões sem os côcos-da-Bahia sem orelhas
sem nariz sem nenhum dos seus tesouros. Afinal pôde se erguer. Quando deu tento das perdas teve ódio de Vei. A galinha cacarejava deixando um ovo na praia. Macunaíma pegou nele e chimpou-o no carão feliz da Sol. O ovo esborrachou bem nas bochechas dela que \ sujou-se de amarelo pra todo o sempre. Entardecia.
Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de dantes e andou contando os tesouros perdidos em baixo d'água. E eram muitos, era uma perna os dedões, eram os côcos-da-Bahia eram as orelhas os dois brincos feitos com a máquina pathek e a máquina smith-wesson, o nariz todos esses tesouros... O herói pulou dando um grito que encurtou o tamanho do dia. As piranhas tinham comido também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou feito louco.
Arrancou uma montanha de timbó de assacú de tingui de canambí, todas essas plantas e envenenou pra sempre olagoão. Todos os peixes morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sara) pintando a face da lagoa. Era de-tardinha.
Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e todos os botos, caqueando a muraquitã nas barrigas. Foi uma sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era bôca-da-noite.
Macunaíma campeava campeava. Achou os dois brincos achou os dedões achou as orelhas os nuquiiri o nariz,todos esses tesouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo monstro Ururau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhara negro cobrindo a praia e o lagoão. Era de-noite.
Macunaíma campeava campeava. Soltava grite de lamentação encurtando com a bulha o tamanho da bicharada. Nada. O herói varava o campo, saltando na perna só. Gritava:
— Lembrança! Lembrança da minha marvada não vejo nem ela nem você nem nada!
E pulava mais. As lágrimas pingavam dos olhinhos azuis dele sobre as florzinhas brancas do campo. As florzinhas tingiram de azul e foram os miosótis. O herói não podia mais, parou. Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço pra conter o
silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: Vim di Minas... vim di Minas...
Então Macunaíma não achou mais graça nesta terra. Capei bem nova relumeava lá na gupiara do céu. Macunaíma cismou inda meio indeciso, sem saber si morar no céu ou na ilha de Marajó. Um momento pensou mesmo em morar na cidade da Pedra com o enérgico Delmiro Gouveia, porém lhe faltou ânimo. Pra viver lá, assim como tinha vivido era impossível. Até era por causa disso mesmo que não achava mais graça na Terra... Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofri: mento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver; e pra parar na cidade do Delmiro ou na ilha de Marajó que são desta Terra carecia de ter um sentido. E ele não tinha coragem pra uma organização. Decidiu:
— Qua o quê!... Quando urubu está de caipora o de baixo caga no de cima, este mundo não tem jeito mais e vou pro céu.
Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação. Não fazia mal que fosse brilho inútil não, pelo menos era o mesmo de todos esses parentes de todos os pais dos vivos da sua terra, mães pais manos cunhas cunhadas cunhatãs, todos esses conhecidos que vivem agora do brilho inútil das estrelas.
Plantou uma semente do cipó matamatá, filho-da-luna, e enquanto o cipó crescia agarrou numa itá pontuda escreveu na lage que já fora jaboti num tempo muito de dantes:
NÃO VIM NO MUNDO PARA SER PEDRA
A planta já tinha crescido e se agarrava numa ponta de Capei. O herói capenga enfiou a gaiola dos legornes no braço e foi subindo pro céu. Cantava triste:
— Vamos dar a despedida,
— Tapera, Taleqüal o passarinho,.
— Tapera, Bateu asa foi-se embora,
— Tapera, Deixou a pena no ninho.
— Tapera...
Lá chegando bateu na maloca de Capei. A Lua desceu no terreiro e perguntou:
— Quê que quer, saci?
— Abênção minha madrinha, me dá pão com farinha?
Então Capei reparou que não era saci não, era Macunaíma o herói. Mas não quis dar pensão pra ele, se lembrando do fedor antigo do herói. Macunaíma enfezou. Deu uma porção de munhecaços na cara da Lua. Por isso que ela tem aquelas manchas escuras na cara.
Então Macunaíma foi bater na casa de Caiuanogue, a estrêla-da- manhã. Caiuanogue apareceu na janelinha pra ver quem era e confundida pelo negrume da noite e a capenguice do herói, perguntou:
— Que é que quer, saci? Mas logo pôs reparo que era Macunaíma o herói e nem esperou resposta se lembrando que ele cheirava muito fedido.
— Vá tomar banho! falou fechando a janelinha. Macunaíma tornou a enfezar e gritou.
— Vem pra rua, cafajeste! Caiuanogue raspou um susto enorme e ficou tremendo espiando pelo buraco da fechadura. Por isso que a bonita da estrelinha é tão pecurrucha e tremelica tanto.
Então Macunaíma foi bater na casa de Pauí-Pódole, o Pai do Mutum. Pauí-Pódole gostava muito dele porque Macunaíma o defendera daquele mulato da maior mulataria na festa do Cruzeiro. Mas exclamou:
— Ah, herói, tarde piaste! Era uma honra grande pra mim receber no meu mosqueiro um descendente de jaboti, raça primeira de todas.. . No princípio era só o Jaboti Grande que existia na vida... Foi ele que no silêncio da noite tirou da barriga um indivíduo e sua cunha. Estes foram os primeiros fulanos vivos e as primeiras gentes da vossa tribo... Depois, que os outros vieram. Chegaste tarde, herói! Já somos em doze e com você a gente ficava treze na mesa. Sinto muito mas chorar não posso!
— Que pena, sinh'Helena! que o herói exclamou. Então Pauí- Pódole teve dó de Macunaíma. Fez uma feitiçaria. Agarrou três pauzinhos jogou pro alto fez encruzilhada e virou Macunaíma com todo o estenderete dele, galo galinhagaiola revólver relógio, numa constelação nova. É a constelação da Ursa Maior.
Dizem que um professor naturalmente alemão andou falando por aí por causa da perna só da Ursa Maior que ela é
o saci... Não é não! Saci inda pára neste mundo espalhando fogueira e traçando crina de bagual... A Ursa Maior é Macunaíma. É mesmo o herói capenga que de tanto penar na terra sem saúde e com muita saúva, se aborreceu de tudo, foi-se embora e banza solitário no campo vasto do céu.






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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XVI




Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XVI





XVI URARICOERA


No outro dia Macunaíma amanheceu com muita tosse e uma febrinha sem parada. Maanape desconfiou e foi fazer um cozimento de broto de abacate, imaginando que o herói estava hético. Em vez era impaludismo, e a tosse viera só por causa da laringite que toda a gente carrega de São Paulo. Agora Macunaíma passava as horas deitado de borco na proa da igarité e nunca mais que havia de sarar. Quando a princesa não podia mais e vinha pra brincarem, o herói até uma vez recusou suspirando:
— Ara... que preguiça...
No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar do Uraricoera. Era ali. Um passarinho serigaita trepado na munguba, enxergando o farrancho gritou logo:
— Sinhá dona do porto, dá caminho pra mim passar!
Macunaíma agradeceu feliz. De pé ele assuntava a paisagem passando. Veio vindo o forte São Joaquim erguido pelo mano do grande Marquês. Macunaíma deu um té-logo pro cabo e pro soldado que só possuíam um naco esfarrapado de culote e o boné na cabeça e viviam guardando as saúvas dos canhões. Afinal ficou tudo conhecidíssimo. Se enxergou o cerro manso que fora mãe um dia, no lugar chamado Pai da Tocandeira, se enxergou o pauê trapacento malhado de vitórias-régias escondendo os puraquês e os pitiús e pra diante do bebedouro da anta se viu o roçado velho agora uma tigüera e a maloca velha agora uma tapera. Macunaíma chorou.
Abicaram e entraram na tapera. Vinha a bôca-da-noite. Maanape com Jiguê resolveram fazer uma facheada pra pegarem algum peixe e a princesa foi ver si topava com algum arezi pra comerem. O heróificou descansando. Estava assim quando sentiu no ombro um peso de mão. Virou a cara e olhou. Junto dele estava um velho de barba. O velho falou:
— Quem és tu, nobre estrangeiro?
— Não sou estranho não, conhecido. Sou Macunaíma o herói e vim parar de novo na terra dos meus. Você quem
é? O velho afastou os mosquitos com amargura e secundou:
— Sou João Ramalho. Então João Ramalho enfiou dois dedos na boca e assoviou. Apareceram a mulher dele as quinze famílias de escadinha. E lá partiram de mudança buscando pagos novos sem ninguém.
No outro dia bem cedinho foram todos trabucar. A princesa foi no roçado Maanape foi no mato e Jiguê foi no rio. Macunaíma se desculpou, subiu na montaria e deu uma chegadinha até a boca do rio Negro pra buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá. Jacaré achou? nem ele. Então o herói pegou na consciência dum hispanoamericano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma.
Passava uma piracema de jaraquis. Macunaíma agarrou pescando e distraído distraído quando viu estava em Óbidos, a montaria cheinha de peixes frescos. Mas o herói foi obrigado a atirar tudo fora porque em Óbidos quem come j ar aqui fica aqui falam e ele tinha que voltar pro Uraricoera. Voltou e como era ainda o pino do dia deitou na sombra da ingazeira catou os carrapatos e dormiu. Tarde chegando todos voltaram pra tapera só Macunaíma não. Os outros saíram pra esperar. Jiguê se acocorou botando a orelha no chão pra ver si escutava o passinho do herói, nada. Maanape trepou no grelo duma inajá pra ver si enxergava o brilho dos brincos do herói, nada. Então saíram por mato e capoeira gritando:
— Macunaíma, nosso mano!... Nada. Jiguê chegou debaixo da ingazeira e gritou:
— Nosso mano!
— Que foi!
— Você, aposto que já estava dormindo!
— Dormindo nada, então! Estava mas era negaceando um inambu- guaçu. Você fez bulha, nhambu escapoliu! Voltaram. E assim todos os dias. Os manos andavam muito desconfiados. Macunaíma percebeu e disfarçou bem:
— Eu caço porém não acho nada não. Jiguê nem caça nem pesca, passa o dia dormindo.
Jiguê teve raiva porque peixe andava rareando e caça inda mais. Foi na praia do rio pra ver si pescava alguma coisa e topou com o feiticeiro Tzaló que tem uma perna só. O catimbozeiro possuía uma cabaça encantada feita com a metade duma casca de gerimum.
Mergulhou a cabaça no rio, encheu de água até o meio e despejou na praia. Caiu um despropósito de peixe. Jiguê reparou bem como que o feiticeiro fazia. Tzaló largou da cabaça por aí e principiou matando peixe com um porrete. Então Jiguê roubou a cabaça do feiticeiro Tzaló que tem uma perna só.
Mais pra diante fez que-nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira veio pacu veio cascudo veio bagre jundiá tucunaré, todos esses peixes e Jiguê voltou carregado pra tapera depois de esconder a cabaça na raiz do cipó. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe e comeram bem. Macunaíma desconfiou.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que Jiguê fosse pescar, saiu atrás. Descobriu tudo. Quando o mano foi-se embora Macunaíma largou da gaiola com os legornes no chão pegou na cabaça escondida e fez que-nem
o mano. Isso vieram muitos peixes, veio acará veio piracanjuba veio aviú guri-juba, piramutaba mandi surubim, todos esses peixes. Macunaíma atirou a cabaça por aí, na pressa de matar todos os peixes, cabaça caiu numa lapa e juque! mergulhou no rio. Passava a pirandira chamada Padzá. Imaginou que era abobra e engoliu a cabaça que virou na beixiga de Padzá. Então Macunaíma enfiou a gaiola no braço voltou pra tapera e contou o sucedido. Jiguê teve raiva.
— Cunhada princesa, eu que pesco, seu companheiro fica dormindo em baixo da ingazeira e inda atrapalha os outros!
— Mentira!
— Então o que você fez hoje?
— Cacei viado.
— Quê-dele ele!
— Comi, uai! Fui andando por um caminho, vai, topei rasto dum... catingueiro não era não mas era mateiro. Meagacheie fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabeçada numa coisa mole, que engraçado! sabem o que era! pois a bunda do viado, gente! (Macunaíma deu uma grande gargalhada). Viado perguntou pra mim:
— Que está fazendo aí, parente!, — Te campeando! secundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo um naco pra vocês, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo, naco foi parar longe e tanajura sujou nele.
A peta era tamanha que Maanape desconfiou. Maanape era feiticeiro. Chegou bem rente do mano e perguntou:
— Você foi na caça?
— Quer dizer... fui sim.
— O quê você caçou?
— Viado.
— Qual! Maanape fez um grande gesto. O herói piscou de medo e confessou que tudo era lorota. No outro dia Jiguê estava procurando a cabaça quando topou com o tatu-canastra feiticeiro chamado Caicãe que
nunca teve mãe. Caicãe sentado na porta da toca puxou a violinha dele feita com a outra metade da abobra encantada e agarrou cantando assim:
Vote vote coandu! Vote vote cuati!
Vote vote taiçu! Vote vote pacari! Vote vote canguçu! Êh!...
Assim. Vieram muitas caças. Jiguê, reparando. Caicãe atirou a violinha encantada por aí, pegou num porrete e foi matar todo aquele poder de caças que estavam feito bobas. Então Jiguê roubou a violinha do feiticeiro Caicãe que nunca teve mãe.
Mais pra diante cantou que nem tinha escutado e veio um dilúvio de caça parando na frente dele. Jiguê voltou carregado pra tapera depois de esconder a violinha na raiz de outro cipó. Todos tornaram a se espantar e comeram bem. Macunaíma tornou a desconfiar.
No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que Jiguê partisse, foi atrás. Descobriu tudo. Quando o mano voltou pra tapera Macunaíma pegou na violinha, fez talequal reparara e veio uma imundície de caça, viados cotias tamanduás capivaras tatus aperemas pacas graxains lontras muçuãs catetos monos tejus queixadas antas, a anta sabatira, onças, a onça pinima a papa-viado a jaguatirica, suçuarana canguçu pixuna, isso era uma imundície de caças! O herói
teve medo daquela bicharada tamanha e saiu numa carreira mãe pinchando a violinha longe. A gaiola enfiada no braço dele ia batendo nos paus e o galo com a galinha faziam um cacarejo de ensurdecer. O herói imaginava que era a bicharia e disparava mais.
A violinha caiu no dente de um queixada que tinha umbigo nas costas e se partiu em dez vezes dez pedaços que os bichos engoliram pensando que era gerimum. Os pedaços viraram nas bexigas das caças. O herói estourou tapera a dentro feito um desesperado botando os bofes pela boca. Nem bem pôde respirar contou
o sucedido. Jiguê teve ódio e falou:
— Agora que não caço nem pesco mais!
E foi dormir. Todos principiaram curtindo fome. Bem que pediam porém Jiguê pulava na rede e fechava os olhos. O herói jurou vingança. Fingiu um anzol com presa de sucuri e falou pro feitiço:
— Anzol de mentira, si mano Jiguê vier experimentar você, então entra na mão dele. Jiguê não podia dormir de tanta fome e enxergando o anzol falou pro mano:
— Mano, esse anzol é bom?
— Xispeteó! Macunaíma fez e continuou limpando a gaiola. Jiguê decidiu ir numa pescaria porque estava mesmo curtindo fome, falou:
— Deixa ver si anzol é bom.
Pegou no feitiço e experimentou na palma da mão. O dente de sucuri entrou na pele e despejou todo o veneno lá. Jiguê correu pro matinho e bem que mastigou e engoliu maniveira, não vale de nada. Então foi buscar uma cabeça de anhuma que fora encostada em picada de cobra. Pôs na mão. Não valeu de nada. Veneno virou numa ferida leprosa e principiou comendo Jiguê. Primeiro comeu um braço depois metade do corpo depois as pernas depois a outra metade do corpo depois o outro braço depois o pescoço e a cabeça. Só ficou a sombra de Jiguê.
A princesa teve ódio. É que ela andava ultimamente brincando com Jiguê. Macunaíma bem que percebeu porém imaginou: Plantei mandioca nasceu maniva, de ladrão de casa ninguém se priva, paciência! ... E tinha encolhido os ombros. A princesa raivosa falou pra sombra:
— Quando o herói for passear de fome você vira num cajueiro numa bananeira e num churrasco de viado. A sombra era envenenada por causa da lepra e a princesa queria matar Macunaíma. No outro dia o herói acordou com tanta fome que foi espairecer passeando. Topou com um cajueiro cheio de
frutas. Quis comer porém presenciou que era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com um churrasco de viado fumegando. Já estava roxo de fome porém pôs reparo que o churrasco era a sombra leprosa e passou adiante. Légua e meia depois topou com uma bananeira carregadinha de pencas maduras. Mas agora o herói já estava que vinha vesgo de tanta fome. A vesgueira fez ele enxergar dum lado a sombra do mano e do outro a bananeira.
— Arre que posso comer! fez.
E devorou todas as pencas. E as bananas eram a sombra leprosa do mano Jiguê. Macunaíma ia morrer.Então se lembrou de passar a doença nos outros pra não morrer sozinho. Pegou numa formiga saúva e esfregou bem ela na ferida do nariz, formiga já foi gente que nem nós e a saúva ficou leprosa. Então o herói agarrou a formiga jaguataci e fez o mesmo. Jaguataci ficou leprosa também. Então foi a vez da formiga aqueque devoradora de sementes e da formiga guiquém, da formiga tracuá e da formiga mumbuca bem preta,todas ficaram leprosas. Não tinha mais formigas em redor do herói sentado. Ele ficou com preguiça de estender o braço porque já estava moribundo. Esperou a visita da saúde, criou força e pegou no mosquitobirigüi mordendo o joelho dele. Passou a doença no mosquito birigüi. Por isso que agora quando esse mosquito morde a gente, entra na pele, atravessa o corpo e sai do outro lado enquanto o furinho de entrada vira na bereva medonha chamada chaga-de-Bauru.
Macunaíma tinha passado a lepra em sete outras gentes e ficou são no sufragante, voltando pra tapera. A sombra de Jiguê conferiu que o herói era muito inteligente e quis voltar desesperada pra junto da família. Era já de-noite e se confundindo com a escureza a sombra não achava mais o caminho perto. Sentou numa pedra e berrou:
— Foguinho, cunhada princesa!
A princesa coxeando muito porque estava doente de zamparina veio com um tição aluminando caminho. A sombra engoliu o fogo e a cunhada. Berrou de novo:
— Foguinho, mano Maanape!
Maanape veio logo com outro tição alumiando caminho. E se arrastava molengo porque barbeiro chupara sangue dele e Maanape estava opilado. A sombra engoliu fogo e mano Maanape. Berrou:
— Foguinho, mano Macunaíma! Queria engolir o herói também mas Macunaíma percebendo o que sucedera pro mano e pra companheira encostou a porta e ficou bem quieto na tapera. A sombra pedia foguinho, pedia porém não recebendo resposta se lastimou até madrugada. Então Capei apareceu iluminando a terra e a leprosa pôde chegar na tapera. Sentou na cangerana da soleira e esperou o dia pra se vingar do mano. De-manhã inda estava acocorada ali. Macunaíma acordou e escutou. Não se ouvia nada e ele concluiu: — Arre! Foi-se! E saiu passear. Quando passou pela porta a sombra trepou no ombro dele. O herói não maliciou nada. Estava padecendo de fome porém a sombra não. deixava ele comer. Tudo o que Macunaíma pegava ela engolia, tamorita mangarito inhame biribá cajuí guiambê guacá uxi ingá bacuri cupuaçu pupunha tape-rebá graviola grumixama, todas essas comidas do mato. Então Macunaíma foi pescar porque agora não tinha mais ninguém que pescasse pra ele não. Mas cada peixe que tirava do anzol e jogava no paneiro, a sombra pulava do ombro, engolia o peixe e voltava pro poleiro outra vez. O herói matutou: Deixa estar que te arranjo!Quando peixe pegou, Macunaíma fez um esforço heróico, deu um bruto arranco na vara de formas que o impulso fez o peixe ir parar lá na Guiana. A sombra correu atrás do peixe. Então Macunaíma gavionou mato fora no sentido oposto. Quando a sombra voltou, não achando mais o mano disparou no rasto dele. Depois de correr um pouco, atravessar a terra dos índios tatus-brancos e pegar um susto tamanho que passou sem pedir licença entre a sombra de Jorge Velho e a sombra do Zumbi que estavam discutindo, o herói fatigadíssimo, olhou pra trás e viu que a
sombra já vinha chegando. Estava na Paraíba e tão sem vontade de chispar que parou. Era por causa do herói estar impaludado. Perto havia uns trabalhadores destruindo formigueiros para construir um açude. Macunaíma pediu água pra eles. Não tinha nem gota porém deram raiz de umbu. O herói matou a sede dos legornes, agradeceu e gritou:
Diabo leve quem trabalha!
Os trabalhadores estumaram a cachorrada no herói. Isso mesmo que ele queria porque teve medo e chispou bem. Na frente abria a estrada das boiadas. Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela sombra, nemturtuveou: meteu pelo estradão. Mais adiante estava dormindo um boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí. O herói deu um trompaço nele de tanta fúria. Isso o boi saiu numa galopada louca de susto e lá foi cego manadeiro abaixo. Então Macunaíma quebrou por uma picada sem jeito e se amoitou por de- baixo dum mucumuco. A sombra escutava a bulha do marruá galopeando e imaginou que era Macunaíma, foi atrás. Alcançou o boi e pra não perder a pernada fez poleiro no costado dele. E cantava satisfeita:
Meu boi bonito, Boi Alegria, Dá um adeus Pra toda a família!
ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!
Porém nunca mais que o boi pôde comer, a sombra engolia tudo antes do bicho. Então o marruá foi ficandojururu ficando jururu magruço e lerdo. Quando passou pelo rincão chamado Água Doce perto de Guarapes, o boi mirou sarapantado bem no meio do areão a vista linda, um laranjal cheio de sombra com a galinha ciscando por baixo. Era sinal de morte... A sombra desenganada cantava agora:
Meu boi bonito,
Boi desengano, Dá um adeus, Até para o ano!
-ôh.-.. êh bumba, Folga meu boi! ôh... êh bumba, Folga meu boi!
No outro dia o marruá estava morto. Foi esverdeando esverdeando... A sombra muito penarosa se consolava cantando assim:
O meu boi morreu, Quê será de mim? Manda buscar outro,
— Maninha, Lá no Bom Jardim..."
E o Bom Jardim era uma estância do Rio Grande do Sul. Então veio vindo uma giganta que gostava de brincar com o marruá. Viu o boi morto,-chorou bem e quis levar o cadáver pra ela.
A sombra teve raiva e cantou:
Arretira-te, giganta,
Que o caso está perigoso! Quem se arretirou amante az ação de generoso!
A giganta agradeceu e foi-se embora dançando. Então passou por ali o indivíduo chamado Manuel da Lapa carregado de folha de cajueiro e de rama de algodão. A sombra saudou o conhecido:
Seu Manué que vem do Açu, Seu Manué que vem do Açu,
Vem carregadinho de folha de caju! Seu Manué que vem do sertão,
Seu Manué que vem do sertão,
Vem carregadinho de rama de algodão!
Manuel da Lapa ficou muito concho com a saudação e pra agradecer dançou um sapateado e cobriu o cadáver com a folha de caju e a rama de algodão.
O velho já estava tirando a noite do buraco e a sombra toda confundida não via mais o boi debaixo dos flocos e da folhagem. Principiou dançando à procura dele. Um vaga-lume se admirou daquilo e cantou perguntando:
Linda pastorinha Que fazeis aqui?
Vim buscar meu gado, Maninha,
Que eu aqui perdi.
Foi como a sombra secundou cantando. Então o vaga-lume dançando voou do tronco pra baixo e mostrou o boi pra sombra. Ela trepou na barriga verde do morto e ficou chorando ali.
No outro dia o boi estava podre. Então vieram muitos urubus, veio o urubu-camiranga, veio o urubu-jeregua o urubu-peba o urubu- ministro o urubu-tinga que só come olhos e língua, todos esses cabeças-peladas e principiaram dançando de contentes. O mai& grande puxava a dança cantando:
Urubu é passo feio feio feio! Urubu é passo limpo limpo limpo!
E era o urubu-ruxama, urubu-rei, o Pai do Urubu. Então mandou um urubuzinho piá entrar dentro do boi para ver si já estava bem podre. O urubuzinho fez. Entrou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos fizeram a festa juntos dançando e cantando:
Meu boi bonito, Boi Zebedeu, Corvo avoando,
Boi que morreu.
Ôh... êh bumba, Folga meu boi! Ôh... êh bumba, Folga meu boi!
E foi assim que inventaram a festa famanada do Bumba-meu-Boi, também conhecida por Boi-Bumbá.
A sombra teve raiva de estarem comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-ruxama. O Pai do Urubu ficou muito satisfeito e gritou:
— Achei companhia pra minha cabeça, gente!
E vou pra altura. Desde esse dia o urubu-ruxama que é o Pai do Urubu possui duas cabeças. A sombra leprosa é a cabeça da esquerda. De primeiro o urubu-rei tinha só uma cabeça.






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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XV



Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XV




A PACUERA DE OIBÊ


Então os três manos voltaram pra querência deles.
Estavam satisfeitos porém o herói inda mais contente que os outros porque tinha os sentimentos que só um herói
pode ter: uma satisfa imensa. Partiram. Quando atravessaram o pico do Jaraguá Macunaíma virou pra trás
contemplando a cidade macota de São Paulo. Maginou sorumbático muito tempo e no fim sacudiu a cabeça murmurando:
— Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são... Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo. Então fez um caborge: Sacudiu os braços no ar e virou a taba gigante num bicho preguiça todinho de pedra. Partiram.
Depois de muito refletir, Macunaíma gastara o arame derradeiro comprando o que mais o entusiasmara na civilização paulista. Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Pathek e o casal de galinha Legorne. Do revólver e do relógio Macunaíma fizera os brincos das orelhas e trazia na mão uma gaiola com o galo e a galinha.
Não possuía mais nem um tostão do que ganhara no bicho porém lhe balangando no beiço furado pendia a muiraquitã. E por causa dela tudo ficara mais fácil. Desciam de rodada o Araguaia e quando Jiguê remava Maanape manejava
o joão-de-pau. Se sentiam marupiaras outra vez. Pois então Macunaíma adestro na proa tomava nota das pontes que carecia construir ou consertar pra facilitar a vida do povo goiano. Noite chegada, enxergando as luzinhas dosafogados sambando manso nas ipueiras da cheia, Macunaíma olhava olhava e adormecia bem. Acordava esperto no outro dia e erguido na proa da igarité com o argolão da gaiola enfiado no braço esquerdo, repinicava na violinha botando a boca no mundo cantando saudades da querência, assim:
Antianti é tapejara,
— Pirá-uauau, Ariramba é cozinheira,
— Pirá-uauau, Tapera, onde a tapera. Da beira do Uraricoera?
— Pirá-uauau.
E o olhar dele espichando espichando descia a pele do rio em busca dos pagos da infância. Descia e cada
cheiro de peixe cada moita de craguatá cada tudo punha entusiasmo nele e o herói botava a boca no mundo
feito maluco fazendo emboladas e traçados sem sentido:
Tapera tapejara,
— Caboré, Arapaçu passoca,
— Caboré, Manos, vamos-se embora Pra beira do Uraricoera!
— Caboré!
As águas araguaias murmurejavam chamando a reta da igarité com gemidinho e lá do longe vinha a cantiga pequenta das uiaras. Vei, a Sol, dava lambadas no costado relumeando suor de Maanape e Jiguê remeiros e no cabeludo corpo em pé do herói. Era um calorão molhado fazendo fogo no delírio dos três. Macunaíma se lembrou que era imperador do Mato-Virgem. Riscou um gesto na Sol, gritando:
— Eropita boiamorebo!
Logo o céu se escurentou de sopetão e uma nuvem ruivor subiu do horizonte entardecendo a calma do dia. A ruivor veio vindo veio vindo e era o bando de araras vermelhas e jandaias, todos esses faladores, era o papagaio-trombeta era o papagaio-curraleiro era o periquito cutapado era o xarã o peito-roxo o ajuru-curau o ajuru-curica arari ararica araraúna araraí araguaí arara-taua maracana maitaca arara- piranga catorra teriba camiranga anaca anapura canindés tuins periquitos, todos esses, o cortejo sarapintado de Macunaíma im perador. E todos esses faladores formaram uma tenda de asas e de gritos protegendo o herói do despeito vingarento da Sol. Era uma bulha de águas deuses e passarinhos que nem se escutava mais nada e a igarité meio parava atordoada. Mas Macunaíma assustando os legornes riscava de quando em vez um gesto diante de tudo e gritava:
— Era uma vez uma vaca amarela, quem falar primeiro come a bosta dela! Dem-de-lem chegou! O mundo ficava mudo não falando um isto e o silêncio vinha amulegar a mornidão da sombra na igarité. E se
escutava lá no longe lá no longe baixinho baixinho o ruidejar do Uraricoera. Então dava mais entusiasmo no herói. A violinha repinicava tremida. Macunaíma pigarreava atirando gusparadas no rio e enquanto o guspe afundavatransformado em mata-matás nojentos, o herói botava a boca no mundo feito maluco sem nem saber o que cantava, assim:
Panapaná pá-panapaná, Panapaná pá-panapanema: Papa de papo na popa,
— Maninha, Na beira do Uraricoera!
Depois a bôca-da-noite engoliu todas as bulhas e o mundo adormeceu. Tinha só Capei, a Lua, enorme de gorda,rechonchuda que-nem cara das polacasdepois duma noite daquelas, puxavante! quanta sacanagem feliz quanta cunha bonita e quanto cachiri... Então Macunaíma teve saudades do sucedido na taba grande paulistana. Viu todas aquelas donas de pele alvinha com quem brincara de marido e mulher, foi tão bom!... Sussurrou docemente: Mani! Mani! filhinhas da mandioca! ... Deu um tremor comovido no beiço dele que quase a muiraquitã cai no rio. Macunaíma tornou a enfiar o tembetá no beiço. Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci. Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!... Quem tem seus amores longe, passa trabalhos trianos... parafusou. Quê caborge da marvada!... E estava lá no campo do céu banzando nuns trinques toda enfeitada passeando brincando quem sabe com quem... Teve ciúmes. Ergueu os braços pro alto assustando os legornes e rezou pro Pai do Amor:
Rudá! Rudá!
Tu que estás no céu
E mandas nas chuvas.
Rudá! faz com que minha amada Por mais companheiros que arranje Ache que todos são frouxos!
Assopra nessa marvada Sodades do seu marvado!
Faz com que ela se lembre de mim amanhã Quando a Sol for-se embora no poente !...
Olhou bem pro ar. Não tinha Ci não, Capei só, gordanchona, tomando tudo. O herói deitou de comprido na igarité, fez um cabeceiro da gaiola e adormeceu entre maruins piuns muriçocas.
A noite já estava amarelando quando Macunaíma acordou com os gritos dos viras num bambuzal. Assuntou a vista e deu um pulo na praia, falando pra Jiguê:
— Espera um bocadinho.
Entrou no mato bem, légua e meia. Foi buscar a linda Iriqui, companheira dele que já fora companheira de Jiguê e esperava se enfeitando e cocando mucuim assentada nas raízes da samaúma. Os dois se festejaram, muito brincaram e vieram pra igarité.
Quando foi ali pelo meio-dia a papagaiada se estendeu de novo resguardando Macunaíma. E assim por muitos dias. Uma tarde o herói estava muito enfarado e se lembrou de dormir em terra firme, fez. Nem bem pisou na praia e se ergueu na frente dele um monstro. Era o bicho Ponde um jucurutu do Solimões que virava gente de-
noite e engolia os estradeiros. Porém Macunaíma pegou na flecha que tinha na ponta a cabeça chata da formiga santa chamada curupê e nem fez pontaria, acertou que foi uma beleza. O bicho Ponde estourou virando coruja. Mais pra diante depois de atravessado um chato quando subia por um espigão cheio de crocas topou com o Monstro Mapinguari macaco-homem que anda no mato fazendo mal pràs moças. O monstro agarrou Macunaíma porém o herói tirou o toaquiçu pra fora e mostrou pro Mapinguari.
— Não confunde não, parceiro!
O monstro riu e deixou Macunaíma passar. O herói andou légua e meia procurando um pouso sem formiga. Subiu na ponta dum cumaru de quarenta metros e afinal depois de muito campear descobriu uma luzinha longe. Foi lá e topou com um rancho. E era o rancho de Oibê. Macunaíma bateu e uma vozica mui doce gemeu de lá dentro:
— Quem vem lá!
— É de paz!
Então a porta se abriu e apareceu um bicho tamanho que sarapantou o herói. Era o monstro Oibê o minhocão temível. O herói sentiu friagem por dentro mas se lembrou do smith-wesson, criou coragem e pediu pousada.
— Entre que a casa é sua. Macunaíma entrou, sentou numa canastra e ficou assim. Afinal perguntou:
— Vamos conversar?
— Vamos.
— Sobre o quê? Oibê cocou a barbicha matutando e de repente descobriu satisfeito:
— Vamos conversar porcaria?
— Chi! gosto disso que é um horror! o herói exclamou: E conversaram uma hora de porcariada.
Oibê estava cozinhando a comidinha dele. Macunaíma não tinha fome nenhuma porém botou a gaiola no chão e só de embusteiro esfregando a mão na barriga fez:
— Juque! Oibê resmungou:
— Que é isso, gente!
— É fome é fome!
Oibê pegou numa gamela, botou cará com feijão dentro, encheu uma cuia com farinha-d'água e ofereceu pro herói. Mas não deu nem um tiquinho de pacuera assando no espeto de canela de sassafrás e aromando bem. Macunaíma engoliu tudo sem mastigar e não tinha fome nenhuma porém a boca dele ficou cheia de água por causa da pacuera assando. Esfregou a mão na barriga e fez: .
— Juque! Oibê resmungou:
— Que é isso, gente!
— É sede é sede!
Oibê pegou no balde e foi buscar água no poço. Enquanto ia, Macunaíma tirou a canela de sassafrás das brasas engoliu a pacuera inteira sem mastigar e ficou bem sossegado esperando. Quando o minhocão trouxe o balde Macunaíma bebeu um coco cheio. Depois se espreguiçando suspirou:
— Juque! O monstro se sarapantou:
— Que mais que é, gente!
— É sono é sono! Então Oibê levou Macunaíma pro quarto-de-hóspedes deu boa- noite e fechou a porta por fora. Foi cear. Macunaíma botou a gaiola num canto, cobrindo o casal de galinhas com umas chitas. Assuntou o quarto bem. Tinha uma bulhinha sem parada vinha de todos os lados. Macunaíma bateu a pedra do isqueiro e viu que eram baratas. Trepou assim mesmo na rede não sem espiar mais uma vez si não faltava nada prós legornes. O casal estava até bem satisfeito comendo barata. Macunaíma se riu pra ele, arrotou e adormeceu. Daí a pouco estava coberto de baratas lambendo.
Quando Oibê pôs reparo que Macunaíma tinha comido a pacuera, teve raiva. Agarrou num sininho, se embrulhou num lençol branco e foi fazer assombração pro hóspede. Mas era só de brincadeira. Bateu na porta e manejou o sininho, de-lem!
— Oi?
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem!
Abriu a porta. Quando o herói enxergou a assombração ficou com tanto medo que nem se mexeu. Ele não sabia que era Oibê não. A fantasma vinha vindo:
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera cuera, de-lem!
Então Macunaíma percebeu que não era assombração nada, era mas o monstro Oibê minhocão temível. Criou coragem pegou no brinco da orelha esquerda que era a máquina revólver e deu um tiro na assombração. Porém Oibê não fez caso e veio vindo. O herói tornou a ter medo. Pulou da rede agarrou a gaiola e escafedeu pela janela, jogando baratas no caminho todo. Oibê correu atrás. Mas era só de brincadeira que ele queria comer o herói. Macunaíma desembestara agreste fora mas isso ia que ia acochado pelo minhocão. Então botou o
furabolo na goela, fez cosquinha e lançou a farinha engolida. A farinha virou num areão e enquanto o monstropelejava pra atravessar aquele mundo de areia escorregando, Macunaíma fugia. Tomou pela direita, desceu o morro do Estrondo que soa de sete em sete anos seguiu por uns caponetes e depois de cortar um travessão encapelado fez o Sergipe de ponta a ponta e parou ofegando num agarrado muito pedregoso. Na frente havia uma lapa grande furada por uma furna com um altarzinho dentro. Na boca da socava um frade. Macunaíma perguntou pro frade:
— Como se chama o nome de você? O frade pôs no herói uns olhos frios e secundou com pachorra:
— Eu sou Mendonça Mar pintor. Desgostoso da injustiça dos homens faz três séculos que afastei-me deles metendo cara no sertão. Descobri esta gruta ergui com minhas mãos este altar do Bom Jesus da Lapa e vivo aqui perdoando gente mudado em frei Francisco da Soledade.
— Está bom, Macunaíma falou. E partiu na chispada.
Mas o terreno era cheio de socavas e logo adiante estava outro desconhecido fazendo um gesto tão bobo que Macunaíma parou sarapantado. Era Hercules Florence. Botara um vidro na boca duma furna mirim, tapava e destapava o vidro com uma folha de taioba. Macunaíma perguntou:
— Ara, ara ara! Mas você não me dirá o quê que está fazendo aí, siô! O desconhecido virou pra ele e com os olhos relumeando de alegria falou:
— Gardez cette date: 1927! Je viens d'inventer Ia photographie! Macunaíma deu uma grande gargalhada.
— Chi! Isso já inventaram que anos, siô! Então Hercules Florence caiu estuporado sobre a folha de taioba e principiou anotando com música uma memória científica sobre o canto dos passarinhos. Estava maluco. Macunaíma chispou.
Depois que correu légua e meia olhou pra trás e viu que Oibê já vinha perto. Botou o furabolo na goela e lá foi prochão todo o cará engolido que virou num tartarugal mexemexendo. Oibê custou pra virar aquela imundície de tartaruga e Macunaíma fugiu. Légua e meia
adiante olhou pra trás. Isso Oibê vinha na cola dele. Então tornou a botar o furabolo na goela e lançou que era só feijão e água. Tudo virou num lamedo cheio de sapos-bois e quanto Oibê se debatia atraves- sando aquilo, o herói catava umas minhocas pras galinhas e partia afobado. Ganhou muita dianteira e parou pra descansar. Ficou bem admirado porque tinha corrido tanto que estava outra feita na porta do rancho de Oibê. Resolveu se esconder no pomar. Tinha um pé de carambola e Macunaíma principiou arrancando ramos do caramboleiro pra se amoitar por debaixo. Os ramos cortados agarram pingando água de lágrima e se escutou o lamento do caramboleiro:
Jardineiro de meu pai, Não me, cortes meus cabelos, Que o malvado me enterrou Pelo figo da figueira Que passarinho comeu...
— Chó, chó, passarinho!
Todos os passarinhos choraram de pena gemida nos ninhos e o herói gelou de susto. Agarrou no patuá que trazia entre os berloques do pescoço e traçou uma mandinga. O caramboleiro virou numa princesa muito chique. O herói teve um desejo danado de brincar com a princesa porém Oibê já devia de estar estourando por aí. De-fato:
— Vim buscar minha pacuera-cuera-cuera-cuera-cuera, de-lem!
Macunaíma deu a mão pra princesa e fugiram na disparada. Mais adiante havia uma figueira com a sapopemba enorme. Oibê estava já no calcanhar deles e Macunaíma não tinha tempo mais pra nada. Então semeteu com a princesa no buraco da sapopemba. Mas o minhocão enfiou o braço e inda agarrou a perna do herói. Ia puxar mas Macunaíma deu uma grande gargalhada de experiência e falou:
— Você está maginando que pegou minha gâmbia, pegou não! Isso é raiz, bocó! O minhocão largou. Macunaíma gritou:
— Pois era a perna mesmo bocó-de-mola!
Oibê tornou a enfiar o braço mas o herói já, tinha encolhido a perna e o minhocão só achou raiz. Tinha uma garça perto. Oibê falou pra ela:
— Comadre garça, bote sentido no herói. Não deixa ele sair que vou buscar uma enxada pra cavar.
A garça ficou guardando. Quando Oibê já estava longe Macunaíma falou pra ela:
— Então, sua palerma, é assim que se bota sentido num herói! Fique bem perto arregalando os olhos!
A garça fez. Então Macunaíma atirou um punhado de formigas-de- fogo nos olhos dela e enquanto a garça gritava de cega ele saiu do buraco com a princesa e escafederam outra vez. Perto de Santo Antônio do Mato Grosso toparam com uma bananeira e estavam morrendo de fome. Macunaíma falou pra princesa:
— Assobe, come as verdes que são boas e atira as amarelas pra mim. Ela fez. O herói se fartou enquanto a princesa dançava de eólicas pra ele apreciar. Oibê já vinha chegando e eles desataram o punho da rede outra vez.
Depois de correrem mais légua e meia, enfim chegaram num firme pontudo do Araguaia. Porém a igarité estava abicada bem mais pra baixo na outra margem com Maanape Jiguê a linda Iriqui, todos esses companheiros dormindo. Macunaíma olhou pra trás. Oibê quase ali. Então botou o furabolo na goela pela última vez, fez cosquinha e alojou a pacuera n'água. A pacuera virou num periantã muito fofo de ervas. Macunaíma botou a gaiola com jeito no fofo, atirou a princesa lá e dando um arranco na margem com o pé, afastou da praia o periantã que as águas levaram. Oibê chegou mas os fugitivos iam longe. Então o minhocão que era um lobisomem famoso principiou tremelicando criou rabo e virou cachorro-do-mato. Escancarou a goela desencantada e saiu da barriga dele uma borboleta azul. Era alma de homem presa no corpo do lobo por artes do Carrapatu medonho que pára na gruta do Iporanga.
Macunaíma e a princesa brincando desciam a corrente do rio. Agora estão se rindo um pro outro. Quando passaram rente da igarité os manos se acordaram com os gritos de Macunaíma e foram atrás. Iriqui ficou logo
enciumada porque o herói não queria saber mais dela e só brincava com a princesa. E pra ver si reconquistava o herói abriu num bué famoso. Jiguê teve logo muita pena dela e falou pra Macunaíma ir brincar com Iriqui um poucadinho. Jiguê era muito bobo. Mas o herói que já andava impinimando com Iriqui secundou pra ele:
— Iriqui é muito relambória, mano, mas a princesa, upa! Não dê credito pra Iriqui não! Oi que Sol de inverno chuva de verão choro de mulher palavra de ladrão, eieiei... ninguém não caia não!
E foi brincar com a princesa. Iriqui ficou triste triste, bem triste, chamou seis araras canindés e subiu com elas procéu, chorando luz virada numa estrela. As canindés amarelinhas também viraram estrelas. É o Setestrêlo.








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