quinta-feira, 30 de junho de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XIII




XIII

A PIOLHENTA DO JIGUÊ


No outro dia por causa da machucadura Macunaíma amanheceu com uma grosseira pelo corpo todo. Foram ver e era a erisipa, doença comprida. Os manos trataram dele bem e traziam diariamente pra casa todos esses remédios pra erisipela que os vizinhos e conhecidos, todos esses Brasileiros aconselhavam. O herói passou uma semana de cama. De-noite sonhava sempre com embarcações e a dona da pensão quando vinha de-manhã por amor de saber como ia o herói dizia sempre que embarcação significava na certa viagem por mar. Depois saía deixando sobre a cama do enfermo o Estado de São Paulo. E o Estado de São Paulo era um jornal. Então Macunaíma gastava o dia lendo todos esses anúncios de remédios pra erisipa. E eram muitos anúncios!
No fim da semana o herói estava descascando bem e foi na cidade buscar sarna pra se cocar. Andou banzando banzando, e muito fatigado por causa da fraqueza parou no parque do Anhangabaú. Chegara bem debaixo do monumento a Carlos Gomes que fora um músico muito célebre e agora era uma estrelinha do céu. O ruído da fontemurmurejando na tardinha dava pro herói a visagem das águas do mar. Macunaíma sentou no parapeito da fonte eassuntou os baguais marinhos de bronze chorando água. E lá na escureza da gruta por detrás da tropilha presenciou uma luz. Fixou mais e distinguiu uma embarcação muito linda que vinha boiando sobre as águas. É uma vigilengamurmurou. Porém a nau vinha chegando cada vez maior. É um gaiola murmurou. Mas o gaiola vinha chegando tão granto tão! que o herói deu um salto sarapantado e
gritou na bôca-da-noite ecoada É um vaticano! O navio já vinha bem visível por detrás dos baguais de bronze. Tinha o corte da velocidade no casco de prata e os mastros inclinados pra trás estavam cheios de bandeiras que o vento da correria imprensava entre as lâminas de ar. O grito chamara os choferes da esplanada e todos curioseavam o gesto parado do herói e seguiam o risco do olhar dele batendo na fonte escura.
— Quê foi, herói?
— Olha lá!... Olha o vaticano macota que vem vindo sobre as águas imensas do mar!
— Aonde!
— Por detrás do cavalo de estibordo!
Então todos viram por detrás do cavalo de estibordo o navio chegando. Já estava bem perto e ia passar entre o cavalo e a parede de pedra, já estava na boca da gruta. E era um navio guaçu.
— Não é vaticano não! é o transatlântico fazendo viagem por mar! gritou um chofer japonês que já fizera muita viagem por mar. E era um transatlântico enorme. Vinha iluminado, relampeava todo de ouro e prata embandeirado e festeiro. Os óculos das cabinas eram colares no casco e nos cinco deques empoleirados corria música entre a gentana dançando mexida no cururu. A choferada comentava:
— É do Lóide!
— Não, é da Hamburgo!
— Vá saindo! tou percebendo! então! É il piróscafo Conte Verde em vez! E era o piróscafo Conte Verde sim. E era a Mãe D'água que vinha bancando piróscafo pra atentar o herói.
— Gente! adeus, gente! Vou pra Europa que é milhor! Vou em busca de Venceslau Pietro Pietra que é o gigante Piaimã comedor de gente! que o herói discursava. E toda a choferada abraçava Macunaíma se despedindo. O vapor estava ali e Macunaíma já pulara no cais da
fonte pra subir a escadinha do piróscafo Conte Verde. Todos os tripulantes na frente da música acenavam chamando Macunaíma e eram marujos forçudos, eram Argentinos finíssimos e eram tantas donas lindíssimas pra gente brincar até enjoar com os balangos das ondas.
— Desce a escadinha, capitão! que o herói exclamou.
Então o capitão tirou o cocar e executou uma letra no ar. E todos, os marujos os Argentinos finíssimos e as cunhas lindíssimas pra Macunaíma brincar, todos esses tripulantes soltaram vaias macotas caçoando do herói enquanto o navio manobrando sem parar dava a popa pra terra e flechava de novo pro fundo da gruta. E todos aqueles tripulantes viraram doentes com erisipa sempre caçoando do herói. E
quando o piróscafo atravessou o estreito entre a parede da gruta e o bagual de bombordo a chaminèzona guspiu uma
fumaçada de pernilongos, de borrachudos mosquitos-pólvora mutucas marimbondos cabas potós môsca-de-ura, todos
esses mosquitos afugentando os motoristas.
O herói sentado no rebordo da fonte penava todo mordido e com mais erisipa, mais, todo erisipelado. Sentiu frio e veio febre. Então espantou com um gesto os mosquitos e caminhou pra pensão.
No outro dia Jiguê entrou em casa com uma cunhatã, fez ela engolir três bagos de chumbo pra não ter filhos e os dois dormiram na rede. Jiguê tinha se amulherado. Ele era muito valente. Passava o dia limpando a espingarda e afiando a lamparina. A companheira de Jiguê todas as manhãs ia comprar macaxeira prós quatro comerem e se chamava Suzi. Porém Macunaíma que era o namorado da companheira de Jiguê, todos os dias comprava uma lagosta pra ela, punha no fundo do jamachi e por cima esparramava a macaxeira pra ninguém não maliciar. Suzi era bem feiticeira. Quando chegava em casa deixava a cesta na saleta e ia dormir pra sonhar. Sonhando ela falava pra Jiguê:
— Jiguê, meu companheiro Jiguê, estou sonhando que tem lagosta por debaixo da macaxeira.
Jiguê ia ver e tinha. Todos os dias era assim e Jiguê tendo amanhecido com dor-de-cotovelo desconfiou. Macunaíma percebeu a dor do mano e fez uma mandinga pra ver si passava. Pegou numa cuia e de-noite deixou-a no terraço, rezando manso:
Água do céu Vem nesta cuia,
Paticl vem nesta água, Moposêru vem nesta água, Sivuoímo vem nesta água, Omaispopo vem nesta água,
Os Donos da Água enxotem a dor-de-corno! Aracu, Mecumecuri, Pai que venham nesta água,
E enxotem a dor-de-corno si o doente beber esta água Em que estão encantados os Donos da Água!
Deu pra Jiguê beber no outro dia porém não surtiu efeito não e o mano andava muito desconfiado.
Quando Suzi se vestia pra ir na feira, assobiava o foxtrote da moda pro namorado ir também. O namorado era Macunaíma, ia. A companheira de Jiguê saía e Macunaíma saía atrás. Andavam brincando por aí e quando chegava a hora da volta já não tinha macaxeira mais na feira. Pois então Suzi disfarçando ia atrás da casa, sentava no jamachi e puxava uma porção de macaxeira de dentro do maissó. Todos comiam muito bem, só Maanape resmungava:
— Caboclo de Taubaté, cavalo pangaré, mulher que mija em pé, libera nós Dominé! e empurrava a comida.
Maanape era feiticeiro. Não queria saber daquela macaxeira não e como andava curtindo fome passava o tempo mastigando ipadu pra enganar. De-noite quando Jiguê queria pular na rede a companheira dele principiava gemendo, falando que estava empanzinada de tanto engolir caroço de pitomba. Era só pra Jiguê não brincar com ela. Jiguê teve raiva.
No outro dia ela foi na feira e assobiou o foxtrote da moda. Macunaíma saiu atrás. Jiguê era muito valente. Pegou numa mirassanga enorme e foi devagarinho atrás deles. Procurou procurou e encontrou Suzi com Macunaíma de, mãos dadas no Jardim da Luz. Já estavam se rindo um pro outro. Jiguê desceu a mirassanga nos dois, levou a companheira pra pensão e deixou o mano fatigado na beira da lagoa entre cisnes.
Do outro dia em diante Jiguê é que fazia as compras deixando a companheira presa no quarto. Suzi sem quefazer passava o tempo contrariando a moralidade mas uma feita o santo Anchieta vindo ao mundo passou pela casa dela e por piedade ensinou-a a catar piolhos. Suzi possuía uns cabelos ruivos à la garçonne e sustentava muitos piolhos, muitos! Agora não sonhava mais que tinha lagostas por debaixo da macaxeira nem não fazia imoralidades. Quando Jiguê par- tia ela tirava os cabelos e espetando-os no porrete do companheiro, catava piolhos. Mas tinha muitos piolhos, muitos! Então com medo que o companheiro apanhasse ela no trabalho, falou assim:
— Jiguê, meu companheiro Jiguê, quando você volta do mercado bate primeiro na porta, bate todos os dias uma porção de tempo pra mim ficar contente e ir cozinhar a macaxeira.
Jiguê falou que sim. Todos os dias ia no mercado comprar macaxeira e quando voltava batia demorado na porta. Então a cunha botava os cabelos na cabeça e ficava esperando Jiguê.
— Suzi, minha companheira Suzi, bati uma porção de vezes na porta, será que você alegrou?
— Muito! ela fez. E foi cozinhar a macaxeira.
E todos os dias eram assim. Mas tinha muitos piolhos, muitos! É que ela contava os catados um por um e por isso os piolhos aumentavam. Uma feita Jiguê matutou no que ficava fazendo a companheira quando ele ia no mercado e teve vontade de assustá-la, fez. Virou de pernas pro ar e veio andando nas pontas das mãos. Abriu a porta e assustou Suzi. Isso ela gritou botando afobada a cabeleira na cabeça. E os cabelos da testa ficaram no cangote e os cabelos do cangote ficaram na testa escorrendo. Jiguê xingou Suzi de porca e deu nela até escutar alguém subindo a escada. Era Chico vindo de baixo. Então Jiguê parou e foi afiar a bicuda.
No outro dia Macunaíma estava outra vez com vontade de brincar com a companheira de Jiguê. Falou prós manos que ia numa caçada longe porém não foi não. Comprou duas garrafas de licor de butiá catarinense uma dúzia de sanduíches dois abacaxis de Pernambuco e se amoitou no quartinho. Passado tempo saiu de lá e falou pra Jiguê, mostrando o embrulho:
— Mano Jiguê, no fim de muitas ruas, você indo, tem uma fruteira trilhada. Vi um poder de caça, vá ver! O mano espiou desconfiado pra ele porém Macunaíma disfarçou bem:
— Olhe, tem paca tatu cotia... Minto, cotia não enxerguei nenhuma. Paca tatu, cotia não. Jiguê emprenhava pelas oiças mesmo, foi logo pegando na espingarda e falou:
— Então vou porém mano jura primeiro que não brinca com minha obrigação.
Macunaíma jurou pela memória da mãe que nem olhava pra Suzi. Então Jiguê tornou a pegar na espingarda-pá e na faca de ponta-tá tatatá e partiu. Macunaíma nem bem Jiguê virou a esquina ajudou Suzi abrindo os embrulhos e botando uma toalha da renda famosa chamada Ninho de Abelha cujo papelão fora roubado em Muriú do Ceará Mirim pela danada Geracina da Ponta do Mangue. Quando tudo ficou pronto os dois pularam na rede e brincaram. Agora estão se rindo um pro outro. Depois de rirem bastante, Macunaíma falou:
— Desarrolha uma garrafa pra gente beber.
— Sim, ela fez. E beberam a primeira garrafa de licor de butiá que era muito gostoso. Os dois estalaram a língua e pularam na rede outra vez. Brincaram quanto quiseram. Agora estão se rindo um pro outro.
Jiguê andou légua e meia, foi até no fim das ruas, campeou a fruteira uns pares de vezes, muito tempo, jacaré achou? nem ele! Não tinha fruteira nenhuma e Jiguê voltou campeando sempre por todos os fins das ruas. Afinal chegou subiu no quarto e encontrou mano Macunaíma com a Suzi já rindo. Jiguê teve raiva e deu uma coca na companheira. Agora ela está chorando. Jiguê agarrou o herói e chegou o porrete com vontade nele. Deu que mais deu até Manuel chegar. Manuel era o criado da pensão, um ilhéu. Agora o herói está fatigado. E Jiguê que vinha padecendo de fome. então comeu as sanduíches os abacaxis e bebeu o licor de butiá.
Os dois sovados passaram a noite se lastimando. No outro dia Jiguê enfarado pegou na sarabatana e saiu pra ver si encontrava à tal de fruteira. Jiguê era muito bobo. Suzi viu ele sair, enxugou os olhos e falou pro namorado:
— Choremos não.
Então Macunaíma desamarrou a cara e se arranjou pra ir falar com mano Maanape. Jiguê de volta na pensão perguntou pra Suzi:
— Onde anda o herói?
Porém ela estava zangadíssima e principiou assobiando. Então Jiguê agarrou no porrete, se chegou pra companheira e disse muito triste:
— Vai embora, perdição!
Daí ela sorriu feliz. Catou sem contar todos os piolhos que restavam e eram muitos piolhos, atrelou-os a uma cadeira-de-balanço, sentou nela, os piolhos pularam e Suzi foi pro céu virada na estrela que pula. É uma zelação.
O herói nem bem viu Maanape de longe pegou se lastimando. Se atirou nos braços do mano e contou uma história bem triste provando que Jiguê não tinha razão nenhuma pra sová-lo tanto. Maanape ficou zangado e foi falar comJiguê. Mas Jiguê também já vinha pra falar com Maanape. Se encontraram no corredor. Maanape contou pra Jiguê e Jiguê contou pra Maanape. Então eles verificaram que Macunaíma era muito safado e sem caráter. Voltaram pro quarto de Maanape e toparam com o herói se lastimando. Pra consolar levaram ele passear na máquina automóvel.










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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XII





XII TEQUETEQUE, CHUPINZÃO E A INJUSTIÇA DOS HOMENS


No outro dia Macunaíma acordou febrento. Tinha mesmo delirado a noite inteira e sonhado com navio.
— Isso é viagem por mar, falou a dona da pensão. Macunaíma agradeceu e de tão satisfeito virou logo
Jiguê na máquina telefone pra insultar a mãe de Venceslau Pietro Pietra. Mas a sombra telefonista avisou que não secundavam. Macunaíma achou aquilo esquisito e quis se levantar pra ir saber o que era. Porém sentia um calorão cocado no corpo todo e uma moleza de água. Murmurou:
— Ai... que preguiça...
Virou a cara pro canto e principiou falando bocagens. Quando os manos vieram saber o que era, era sarampão. Maanape logo foi buscar o famoso Bento curandeiro em Beberibe que curava com alma de índio e água de pote. Bento deu uma agüinha e fez reza cantada. Numa semana o herói já estava descascando. Então se levantou e foi saber o que tinha sucedido pro gigante.
Não tinha ninguém no palácio e a copeira do vizinho contou que Piaimã com toda a família fora na Europa descansar da sova. Macunaíma perdeu todo o requebrado e se contrariou bem. Brincou com a copeira muito aluado e voltou macambúzio pra pensão. Maanape e Jiguê encontraram o herói na porta da rua e perguntaram pra ele:
— Quem matou seu cachorrinho, meus cuidados? Então Macunaíma contou o sucedido e principiou
chorando. Os manos ficaram bem tristes de ver o herói assim e levaram ele visitar o Leprosário de Guapira, porém Macunaíma estava muito contrariado e o passeio não teve graça nenhuma. Quando chegaram na pensão era noitinha e todos já estavam desesperados. Tiraram uma porção enorme de tabaco dum cornimboque imitando cabeça de tucano e espirraram bem. Então puderam pensamentear.
— Pois é, meus cuidados, você andou lerdeando, cozinhando galo, cozinhando galo, o gigante é que não havia de
esperar, foi-se. Agora agüente a massada! Nisto Jiguê bateu na cabeça e exclamou:
— Achei!
Os manos levaram um susto. Então Jiguê lembrou que eles podiam ir na Europa também, atrás da muiraquitã. Dinheiro, inda sobravam quarenta contos do cacau vendido. Macunaíma aprovou logo porém Maanape que era feiticeiro imaginou imaginou e concluiu:
— Tem coisa milhor.
— Pois então desembuxe!
— Macunaíma finge de pianista, arranja uma pensão do Governo e vai sozinho.
— Mas praquê tanta complicação si a gente possui dinheiro à bessa e os manos podem me ajudar na Europa!
— Você tem cada uma que até parece duas! Poder a gente pode sim porém mano seguindo com arame do Governo
não é milhor? É. Pois então! Macunaíma estava refletindo e de repente bateu na testa:
— Achei! Os manos levaram um susto.
— Quê foi!
— Pois então finjo de pintor que é mais bonito! Foi buscar a máquina óculos de tartaruga um gramofoninho meias de golfe luvas e ficou parecido com pintor.
No outro dia pra esperar a nomeação matou o tempo fazendo pinturas. Assim: Agarrou num romance de Eça de Queiroz e foi na Cantareira passear. Então passou perto dele um cotruco andarengo muito marupiara porque possuía folhinha de picapau. Macunaíma dei- tado de bruços divertia-se amassando os tacurus das formigas tapipitingas. O tequeteque saudou:
— Bom-dia, conhecido, como le vai, muito obrigado, bem. Trabalhando, não?
— Quem não trabuca não manduca.
— É mesmo. Bom, té-loguinho.
E passou. Légua e meia adiante topou com um mi-cura e lembrou de trabucar também um bocado. Pegou no gambazinho, fez ele engolir dez pratas de dois milréis e voltou com o bicho debaixo do braço. Chegando perto de Macunaíma mascateou:
— Bom-dia, conhecido, como le vai, muito obrigado, bem. Si você quer te vendo meu micura.
— Quê que vou fazer com um bicho tão pichento! Macunaíma secundou botando a mão no nariz.
— Tem aca mas é coisa muito boa! Quando faz necessidade só prata que sai! Vendo barato pra você!
— Deixe de conversa, turco! Onde que se viu micura assim! Então o tequeteque apertou a barriga do gambá e o bicho desistiu as dez pratinhas.
— Está vendo! Faz necessidade é prata só! Ajuntando a gente fica riquíssimo! Barato pra você!
— Quanto que custa?
— Quatrocentos contos.
— Não posso comprar, só tenho trinta.
— Pois então pra ficar freguês deixo por trinta contos pra você!
Macunaíma desabotoou as calças e por debaixo da camisa tirou o cinto que carregava dinheiro. Porém só tinha a letra de quarenta contos e seis fichas do Cassino de Copacabana. Deu a letra e teve vergonha de receber o troco. Até inda deu as fichas de inhapa e agra- deceu a bondade do tequeteque.
Nem bem o mascate sorvetera entre as sapupiras guarubas e parinais do mato que já o micura quis fazer necessidade outra feita. O herói arrendondou o bolso aparando e a porcaria caiu toda ali. Então Macunaíma percebeu o logro e abriu numa gritaria desgraçada, caminho da pensão. Virando uma esquina encontrou o José Prequeté e gritou pra ele:
— Zé Prequeté, tira bicho do pé pra comer com café! José Prequeté ficou com ódio e insultou a mãe do herói porém este não fez caso não, deu uma grande gargalhada e foi seguindo. Mais adiante lembrou que ia indo pra casa zangado e pegou na gritaria outra vez.
Os manos inda não tinham voltadoda maloca do Governo e a patroa veio no quarto pra consolar Macunaíma, brincaram. Depois de brincarem o herói pegou no choro. Quando os manos chegaram toda a gente se sarapantou porque eles tinham cinco metros de altura. Não vê que o Governo estava com mil vezes mil pintores já encaminhados pra mandar na pensão da Europa e Macunaíma ser nomeado era mas só no dia de São Nunca. Ficava muito longe. Oinvento tinha favado e os manos ficaram compridos por causa do desaponto. Quando enxergaram o mano chorando, se assustaram bem e quiseram saber a causa. E como esqueceram o desaponto voltaram pro tamanho de dan- tes, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem.
O herói fazia:
— Ihihih! tequeteque me embromou! Ihihih! Comprei micura dele, quarenta contos me custou! Então os irmãos se descabelaram. Agora não era possível mais irem na Europa não, porque possuíam só a noite e
o dia. Levaram na prantina enquanto o herói esfregava o óleo de andiroba no corpo prós mosquitos não amolarem e adormecia bem.
No outro dia amanhaceu fazendo um calorão temível e Macunaíma suava que mais suava dum lado pra outro enraivecido com a injustiça do Governo. Quis sair pra espairecer porém aquela roupa tanta aumentando o calor... Teve mais raiva. Teve raiva por demais e maliciou que ia ficar com o butecaiana que é doença da raiva. Então exclamou:
— Ara! Ande eu quente, ria-se a gente!
Tirou as calças pra refrescar e pisou em cima. A raiva se acalmou no sufragante e até que muito satisfeito Macunaíma falou prós manos:
— Paciência, manos! não! não vou na Europa não. Sou Americano e meu lugar é na América. A civilização
européia de certo esculhamba a inteireza do nosso caráter. Durante uma semana os três vararam o Brasil todo pelas restingas de areia marinha, pelas restingas de mato ralo, barrancas de paranãs, abertões, corredeiras carrascos carrascões e chavacais, coroas de vazante boqueirões mangas e
fundões que eram ninhos de geada, espraiados pancadas pedrais funis bocainas barroqueiras e rasouras, todos esses
lugares, campeando nas ruínas dos conventos e na base dos cruzeiros pra ver si não achavam alguma panela com dinheiro enterrado. Não acharam nada.
— Paciência, manos! Macunaíma repetiu macambúzio. Jogamos no bicho!
E foi na praça Antônio Prado meditar sobre a injustiça dos homens. Ficou lá encostado num plátano muito bem.
Todos os comerciantes e aquele despropósito de máquina passavam rentinho do herói grugunzando sobre a injustiça
dos homens. Macunaíma já estava disposto a mudar o dístico pra: Pouca saúde e muitos pintores os males do Brasil
são quando escutou um Ihihih! chorando atrás. Virou e viu no chão um ticotico e um chupim.
O ticotico era pequetitinho e o chupim era macota. O ticotiquinho ia dum lado pra outro acompanhado sempre do
chupinzão chorando pro outro dar de comer pra ele. Fazia raiva. O ticotiquinho imaginava que o chupinzão era
filhote dele mas não era não. Então voava, arranjava um decumê por aí que botava no bico do chupinzão. Chupinzão
engolia e pegava na manha outra vez: Ihihih! mamãe... telo decumê!... telo decumê!... lá na língua dele. O
ticotiquinho ficava azaranzado porque estava padecendo fome e aquele nhenhenhén-nhenhenhén azucrinando ele,
atrás, diz-que Telo decumê!... telo decumê!... não podia com o amor sofrendo. Largava de si, voava buscar um
bichinho uma quirerinha, todos esses decumês, botava no bico do chupinzão, chupinzão engolia e principiava atrás
do ticotiquinho outra vez. Macunaíma estava meditando na injustiça dos homens e teve um amargor imenso da
injustiça do chupinzão. Era porque Macunaíma sabia que de primeiro os passarinho foram gente feito nós... Então o
herói pegou num porrete e matou o ticotiquinho.
Foi-se embora. Depois que andou légua e meia sentiu calor e lembrou de beber pinga pra refrescar. Trazia semprenum bolso do paletó uma garrafinha de pinga presa ao puíto por uma corrente de prata. Desarrolhou e chupitou de manso. Eis sinão quando escutou atrás um Ihihih! chorando. Virou sarapantado. Era o chupinzão.
— Ihihih! papai... telo decumê!... telo decumê!... lá na língua dele. Macunaíma ficou com ódio. Abriu o bolso onde estava guardado aquilo do micura e falou:
— Pois coma então! Chupinzão pulou na beira do bolso e comeu tudo sem saber. Foi engordando engordando, virou numpássaro preto bem grande e voou prós matos gritando Afinca! Afinca!. É o Pai do Vira.
Macunaíma seguiu caminho. Légua e meia adiante estava um macaco mono comendo coquinho baguaçu. Pegava no coquinho, botava no vão das pernas junto com uma pedra, apertava e juque! a fruta quebrava. Macunaíma veio e esgurejou com a boca cheia d'água. Falou:
— Bom-dia, meu tio, como lhe vai?
— Assim assim, sobrinho.
— Em casa todos bons?
— Na mesma. E continuou mastigando. Macunaíma ali, sapeando. O outro enquizilou assanhado:
— Não me olhe de banda que não sou quitanda, não me olhe de lado que não sou melado!
— Mas o quê você está fazendo aí, titio! O macaco mono soverteu o coquinho na mão fechada e secundou:
— Estou quebrando os meus toaliquiçus pra comer.
— Vá mentir na praia!
— Uai, sobrinho, si tu não dá crédito então pra-quê pergunta! Macunaíma estava com vontade de acreditar e indagou:
— É gostoso é? O mono estalou a língua:
— Chi! prove só! Quebrou de escondido outro coquinho, fingindo que era um dos toaliquiçus e deu pra Macunaíma comer.
Macunaíma gostou bem. —-É bom mesmo, tio! Tem mais?
— Agora se acabou mas si o meu era gostoso que fará os vossos! Come eles, sobrinho! O herói teve medo:
— Não dói não?
— Qual, si até é agradável!... O herói agarrou num paralelepípedo. O macaco mono rindo por dentro inda falou pra ele:
— Você tem mesmo coragem, sobrinho?
— Boni-t-ó-tó macaxeira comotó! o herói exclamou empafioso. Firmou bem o paralelepípedo e juque! nos toaliquiçus. Caiu morto. O macaco mono caçoou assim:
— Pois, meus cuidados, não falei que tu morrias! Falei! Não me escutas! Estás vendo o que sucede prós desobedientes. Agora: sic transit!
Então calçou as luvas de balata e foi-se. Daí a pouco veio uma chuvarada que refrescou a carne verde do herói, impedindo a putrefação. Logo se formou um poder de correições de formigas guajuguajus e muru-petecas pro corpo morto. O advogado Fulano atraído pelas correições topou com o defunto. Abaixou, tirou a carteira do cadáver porém só tinha cartão-de-visita. Então resolveu levar o defunto pra pensão, fez. Carregou Macunaíma nas costas e foi andando. Porém o defunto pesava por demais e o advogado viu que não podia com o peso. Então arreou o cadáver e deu uma coca de vara nele. O defunto ficou levianinho e o advogado Fulano pôde levá-lo pra pensão.
Maanape chorou muito se atirando sobre o corpo do mano. Depois descobriu o esmagamento. Maanape era feiticeiro. Logo pediu de emprestado pra patroa dois côcos-da-Bahia, amarrou-os com nó-cego no lugar dos toaliquiçus amassados e assoprou fumaça de cachimbo no defunto herói. Macunaíma foi se erguendo muito
desmerecido. Deram guaraná pra ele e daí a pouco matava sozinho as formigas que inda o mordiam. Estava tremendo muito porque por causa da chuvarada a friagem batera de repente. Macunaíma tirou a garrafinha do bolso e bebeu o resto da pinga pra esquentar. Depois pediu uma centena pra Maanape e foi até um chalé jogar no bicho. De-tarde quando viram, a centena tinha dado mesmo. E assim eles viveram com os palpites do mano mais velho. Maanape era feiticeiro.









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terça-feira, 28 de junho de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XI




XI A VELHA CEIUCI


No outro dia o herói acordou muito constipado. Era porque apesar do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indivíduo dormindo nu. Mas estava muito gangento com o sucesso do discurso da véspera. Esperou impaciente os quinze dias da doença resolvido a contar mais casos pro povo. Porém quando se sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria rabo de cotia. Por isso convidou os manos pra caçar, fizeram.
Quando chegaram ao bosque da Saúde o herói murmurou:
— Aqui serve.
Dispôs os manos nas esperas, botou fogo no bosque e ficou também amoitado esperando que saísse algum viado mateiro pra ele caçar. Porém não tinha nenhum viado lá e quando queimada acabou, jacaré saiu? pois nem viado mateiro nem viado catingueiro, saíram só dois ratos chamuscados. Então o herói caçou os ratos chamuscados, comeu-os e sem chamar os manos voltou pra pensão.
Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhas datilógrafos estudantes empregados-públicos, muitos empregados- públicos! todos esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara dois...
— ... mateiros, não eram viados mateiros não, dois viados catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês mas porém escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e cachorro comeu tudo.
Toda a gente se sarapantou com o sucedido e desconfiaram do herói. Quando Maanape e Jiguê voltaram, os vizinhos foram perguntar pra eles si era verdade que Macunaíma caçara dois catingueiros na feira do Arouche. Os manos ficaram muito inquizilados porque não sabiam mentir e exclamaram irritadíssimos:
— Mas que catingueiros esses! O herói nunca matou viado!- Não tinha nenhum viado na caçada não! Gato miador, pouco caçador, gente! Em vez foram dois ratos chamuscados que Macunaíma pegou e comeu.
Então os vizinhos perceberam que tudo era mentira do herói, tiveram raiva e entraram no quarto dele pra tomar satisfação. Macunaíma estava tocando numa flautinha feita de canudo de mamão. Parou o sopro, aparou o bocal da flautinha e se admirou muito sos- segado:
— Praquê essa gentama no meu quarto, agora!... Faz mal pra saúde, gente! Todos perguntaram pra ele:
— O que foi mesmo que você caçou, herói?
— Dois viados mateiros.
Então os criados as cunhas estudantes empregados-públicos. todos esses vizinhos principiaram rindo dele. Macunaíma sempre aparando o bocal da flautinha. A patroa cruzando os braços ralhou assim:
— Mas, meus cuidados, praquê você fala que foram dois viados e em vez foram dois ratos chamuscados!
Macunaíma parou assim os olhos nela e secundou:
— Eu menti.
Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalistrado. Maanape e Jiguê se olharam, com inveja da inteligência do mano. Maanape inda falou pra ele:
— Mas praquê você mentiu, herói!
— Não foi por querer não... quis contar o que tinha sucedido pra gente e quando reparei estava mentindo. ..
Jogou a flautinha fora, pegou no ganzá pigarreou e descantou. Descantou a tarde inteirinha uma moda tão sorumbática mas tão sorumbática que os olhos dele choravam a cada estrofe. Parou porque os soluços não deixaram mais continuar. Largou do ganzá. Lá fora a vista era uma tristura de entardecer dentro da cerração. Macunaímasentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci a inesquecível. Chamou os manos pra se consolarem todos juntos. Maanape e Jiguê sentaram junto dele na cama e os três falaram longamente da Mãe do Mato. E espalhando a saudade falaram dos matos e cobertos cerrações deuses e barrancas traiçoeiras do Uraricoera. Lá que eles tinham nascido e se rido pela primeiravez nos macurus... Encostados nas maquiras pra lá do limpo do mocambo os guirás cantavam o que não dava o dia e
eram pra mais de quinhentas as famílias dos guirás... Perto de quinze vezes mil espécies de animais assombravam o mato de tantos milhões de paus que não tinham mais conta... Uma feita um branco trouxera da terra dos Ingleses, dentro dum sapiquá gótico, a constipação que fazia agora Macunaíma tanto chorar de sodades. E a constipação tinha ido morar no antro das formigas mumbucas mui pretas. Na escureza o calor se amaciava como saindo das águas; pra trabalhar se cantava; nossa mãe ficara virada numa coxilha mansa no lugar chamado Pai do Tocandeira. >. Ai, que preguiça... E os três manos perceberam per- tinho o murmurejo do Uraricoera! Oh! como era bom por lá... O herói se atirou pra trás chorando largado na cama.
Quando a vontade de chorar parou, Macunaíma afastou os mosquitos e quis espairecer. Se lembrou de ofender a mãe do gigante com uma bocagem novinha vinda da Austrália. Virou Jiguê na máquina telefone porém o mano inda estava muito confundido com o caso da mentira do herói e não houve meios de ligar. O aparelho tinha defeito. Então Macunaíma fumou fava de paricá pra ter sonhos gostosos e adormeceu bem.
No outro dia lembrou que precisava se vingar dos manos e resolveu passar um pealo neles. Levantou madrugadinha e foi esconder no quarto da patroa. Brincou pra fazer tempo. Depois voltou falando afobado prós manos:
— Oi, manos achei rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa de Mercadorias!
— Que me diz, perdiz!
— Pois é. Quem que havia de dizer!
Ninguém inda não matara tapir na cidade. Os manos se sarapantaram e foram com Macunaíma caçar o bicho. Chegaram lá, principiaram procurando o rasto e aquele mundão de gente comerciantes revendedores baixistas matarazos, vendo os três manos curvados pro asfalto procurando, principiaram campeando também,todo aquele mundão de gente. Procuraram procuraram, você achou? nem eles! Então perguntaram pra Macunaíma:
— Onde que você achou rasto de tapir? Aqui não tem rasto nenhum não! Macunaíma não parava de campear falando sempre:
— Tetápe, dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte.
E os manos regatões zanguões tequeteques madalenas e Hungareses recomeçavam procurando o rasto. Quando cansavam e paravam pra perguntar, Macunaíma campeando sempre secundava:
— Tetápe, dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte.
E todo aquele mundão de gente procurando. Era já perto da noite quando pararam desacorçoados. Então Macunaíma se desculpou:
— Tetápe dzónanei pemo...
Não deixaram nem que ele acabasse, todos perguntando o que significava aquela frase. Macunaíma respondeu:
— Sei não. Aprendi essas palavras quando era pequeno lá em casa. E todos se queimaram muito. Macunaíma fastou disfarçado falando:
— Calma gente! Tetápe hêhê! Não falei que tem rasto de tapir não falei que tinha! Agora não tem mais não.
Foi pior. Um dos comerciantes se zangou de verdade e o repórter que estava ao pé dele vendo o outro zangado zangou também por demais.
— Isso não vai assim não! Pois então a gente vive trabucando pra ganhar o pão-nosso e vai um indivíduo tira a gente o dia inteiro do trabalho só pra campear rasto de tapir!
— Mas eu não pedi pra ninguém procurar rasto, moço, me desculpe! Meus manos Maanape e Jiguê é que andaram pedindo, eu não! Culpa é deles!
Então o povo que já estava todo zangado virou contra Maanape e contra Jiguê. Já todos, e eram muitos! estavam com vontade de armar uma briga. Então um estudante subiu na capota dum auto e fez discurso contra Maanape e contra Jiguê. O povo estava ficando zangadíssimo.
— Meus senhores, a vida dum grande centro urbano como São Paulo já obriga a uma intensidade tal de trabalhoque não permite-se mais dentro da magnífica entrosagem do seu progresso siquer a passagem momentânea de seres inócuos. Ergamo-nos todos una você
contra os miasmas deletérios que conspurcam o nosso organismo social e já que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da Nação, sejamos nós mesmos os justiçadores...
— Lincha! lincha! que o povo principiou gritando.
— Quê lincha nada! exclamou Macunaíma tomando as dores pelos manos. E todos se viraram contra ele outra vez. E agora já estavam zangadíssimos. O estudante continuava pra si:
— ... e quando o trabalho honesto do povo é perturbado por um desconhecido...
— O quê! quem que é desconhecido! berrou Macunaíma desesperado com a ofensa.
— Você!
— Não sou, tá'í!
— É!
— Ora vá desmamar jacu com alpiste, moço! Desconhecida é a senhora vossa mãe, ouviu! — e virando pro povo: O que vocês estão pensando, hein! Não tenho medo não! nem de um nem de dois nem de dez mil e daqui a pouco eu arraso tudo isto aqui!
Uma madalena que estava na frente do herói, virou pro comerciante atrás dela e zangou:
— Não bolina, senvergonha! O herói estava cego de raiva, pensou que era com ele e:
— Quê não bolina agora! não estou bolinando ninguém, sua lambisgóia!
— Lincha o bolina! Pau nele!
— Pois venham, cafajestes!
E avançou pra multidão. O advogado quis fugir porém Macunaíma atirou um pontapé nas costas dele e entrou pelo povo distribuindo rasteiras e cabeçadas. De repente viu na frente um homem alto loiro mui lindo. E o homem era um grilo. Macunaíma teve ódio de tanta boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fuças do grilo. O grilo berrou, e enquanto falava uma frase em língua estrangeira agarrou o herói pelo congote.
— Prrrêso! O herói gelou.
— Preso por quê? O polícia secundou uma porção de coisas em língua estrangeira e segurou firme.
— Não estou fazendo nada! que o herói murmurava com medo.
Porém o grilo não quis conversa e foi descendo a ladeirinha com o povo todo atrás. Outro grilo chegou e os dois falaram muitas frases, muitas! em língua estrangeira e lá foram empurrando o herói ladeira abaixo. Uma testemunha de tudo contou o sucedido pra um senhor que estava na porta duma casa de frutas e o senhor penalizado atravessou a multidão e fez os grilos pararem. Era já na rua Libero. Então o senhor fez um discurso prós grilos, que eles não deviam de levar Macunaíma preso porque o herói não fizera nada. Tinha ajuntado uma porção de grilos mas nenhum não entendia o discurso porque nenhum não pescava nada debrasileiro. As mulheres choravam com dó do herói. Os grilos falavam por demais numa língua estrangeira e uma voz gritou:
— Não pode!
Então o povo ficou com muita vontade de pelear outra vez e de todos os lados agora estavam gritando: Larga!. Não leva!. Não pode!. Não pode!, um chinfrim, Solta!. Um fazendeiro estava disposto a fazer discurso insultando a Polícia. Os grilos não entendiam nada e gesticulavam, muito atrapalhados falando em língua estrangeira. Formou-se um furdunço temível. Então Macunaíma se aproveitou da trapalhada e pernas praquê vos quero! Vinha um bonde na carreira badalando. Macunaíma pongou o bonde e foi ver como passava o gigante.
Venceslau Pietro Pietra já principiava convalescendo da sova apanhada na macumba. Fazia um calorão dentro da casa porque era hora de cozinharem a polenta e fora a fresca era boa por causa do vento sulão. Por isso o gigante com a velha Ceiuci as duas filhas e a criadagem pegaram cadeiras e vieram sentar na porta darua pra gozar a frescata. O gigante ainda não saíra do algodão e estava talequal um fardo caminhando. Sentaram.
O curumi Chuvisco andava librinando pelo bairro e encontro Macunaíma negaceando da esquina. Parou e ficou olhando o herói. Macunaíma virou-se:
— Nunca viu não!
— Quê que você está fazendo aí, conhecido!
— Estou assustando o gigante Piaimã com sua família. Chuvisco debicou:
— Qual! não vê que gigante tem medo de ti! Macunaíma encarou o curumi empalamado e teve raiva. Quis bater nele porém lembrou de cor: Quando você estiver embrabecendo conta três vezes os botões da vossa roupa, contou e ficou manso de novo. Então secundou:
— Quer apostar? Eu faço e aconteço e garanto que Paiamã vai pra dentro com medo de mim. Esconde lá perto pra
escutar só o que eles falam. Chuvisco avisou:
— Oi, conhecido, tome tento com gigante! Você já sabe do que ele é capaz. Piaimã está fraco está fraco porém canudo que teve pimenta guarda o ardume.. Si você não tem medo mesmo, aposto.
Virou numa gota e pingou rente de Venceslau Pietro Pietra com a companheira as filhas e a criadagem. Então Macunaíma pegou na primeira palavra-feia da coleção e jogou na cara de Piaimã. O palavrão bateu de rijo porém Venceslau Pietro Pietra nem se incomo- dou, direitinho elefante. Macunaíma chimpou outra bocagem mais feia na caapora. A ofensa bateu rijo porém se incomodar é que ninguém se incomodou. Então Macunaíma jogou toda a coleção de bocagens e eram dez mil vezes dez mil bocagens. Venceslau Pietro Pietra falou pra velha Ceiuici, bem quieto:
— Tem algumas que a gente não conhece inda não, guarda pra nossas filhas. Então Chuvisco voltou pra esquina. O herói garganteou:
— Tiveram medo ou não tiveram!
— Medo nada, conhecido! Até o gigante mandou guardar as bocagens novas pras filhas brincarem. De mim que eles têm medo, ocê aposta? Vá lá perto e escute só.
Macunaíma virou num caxipara que é o macho da formiga saúva e foi se enroscar na rama de algodão acolchoando o gigante. Chuvisco amontou numa neblina e quando ia passando em riba da família deu uma mijadinha no ar. Principiou peneirando uma chuva-de-preguiça. Quando os pingos vieram caindo o gigante olhou pra um agarrado na mão dele e teve paúra de tanta água.
— Vam'bora, gente! E todos com muito medo foram correndo pra dentro. Então Chuvisco desapeou e disse pra Macunaíma:
— Está vendo? E assim até hoje. A família do gigante tem medo de Chuvisco mas de palavra-feia não. Macunaíma ficou muito despeitado e perguntou pro rival:
— Me diga uma coisa: você conhece a língua do lim-pim-gua-pá?
— Nunca vi mais gordo!
— Pois então, rival: Vá-pá à-pá mer-per-da-pá! E abriu o pala até a pensão.
Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta e se lembrou de fazer uma pescaria. Porém não podiapescar nem de frecha nem com timbó nem cunambi nem tiguí nem macerá nem no pari nem com linha nem arpão nem juquiaí nem sararaca nem gaponga nem de poita nem de cassuá nem itapuá nem de giqui nem de grozera nem de gererê guê tresmalho aparador gungá cambango arinque batebate gradeira caicai penca anzol de vara covo, todos esses objetos armadilhas e ve- nenos porque não possuía nada disso não. Fez um anzol com cera de mandaguari mas bagre mordia, levava anzol e tudo. Porém tinha ali perto um Inglês pescando aimarás com anzol de verdade. Macunaíma voltou pra casa e falou pra Maanape:
— Quê que havemos de fazer! Carecemos de tomar anzol de Inglês. Vou tirar aimará de mentira pra enganar o bife. Quando ele me pescar e der a batida na minha cabeça então faço juque! enganando que morri. Ele me atira no samburá, você pede o peixe mais grande pra comer e sou eu.
Fez. Virou num aimará pulou na lagoa, o Inglês pescou-o e bateu na cabeça dele. O herói gritou Juque! Mas o Inglês tirou o anzol da goela do peixe porém. Maanape veio vindo e muito disfarçado pediu pro Inglês:
— Dá peixe pra mim, seu Yes?
— Ali right. E deu um lambari de rabo vermelho.
— Ando padecendo de fome, seu Inglês! dá um macota, vá! esse um gordinho do samburá!
Macunaíma estava com o olho esquerdo dormindo porém Maanape conheceu-o bem. Maanape era feiticeiro. O Inglês deu o aimará pra Maanape que agradeceu foi-se embora. Quando estava légua e meia longe o limará virou Macunaíma outra vez. Assim três vezes, Inglês sempre tirando anzol da goela do herói. Macunaíma segredou pro mano:
— Quê que havemos de fazer! Carecemos de tomar anzol de Inglês. Vou virar piranha de mentira e arranco anzol
da vara. Virou numa piranha feroz pulou na lagoa arrancou anzol e desvirando outra vez légua e meia abaixo no lugar chamado Poço do Umbu onde tinha umas pedras cheias de letreiros encarnados da gente fenícia sacou anzol da goela bem contente porque agora podia pescar corimã piraíba aruana pirara piaba todos esses'peites. Os dois manos iam-se quando escutaram Inglês falando pra Uruguaio:
— Que posso fazer agora! Não possuo mais anzol que a piranha engoliu. Vou pra vossa terra, conhecido. Então Macunaíma fez um grande gesto com os dois braços e gritou:
— Espera um bocado, tapuitinga! O Inglês se voltou e Macunaíma só de caçoada virou-o na máquina London Bank. No outro dia falou prós manos que ia pescar peixões no igarapé Tietê. Maanape avisou:
— Não vá, herói, que você topa com a velha Ceiuci mulher do gigante. Te come, heim!
— Não tem inferno pra quem já navegou no Cachoeira! que Macunaíma exclamou. E partiu.
Nem bem lançou a linha de cima dum mutá que veio vindo a velha Ceiuci pescando de tarrafa. A caapora viu a sombra de Macunaíma refletida n'água jogou depressa a tarrafa e só pescou sombra. O herói nem não achou graça porque estava tremendo de medo, vai, pra agradecer falou assim:
— Bom-dia, minha vó. A velha virou a cara pro alto e descobriu Macunaíma em riba do mutá.
— Vem cá, meu neto.
— Não vou lá não.
— Pois então mando marimbondos. Fez. Macunaíma arrancou um molho de pataqueira e matou os marimbondos.
— Desce, meu neto, que sinão mando novatas!
Fez. As formigas novatas ferraram em Macunaíma e ele caiu n'água. Então a velha tarrafiou, envolveu o herói nas malhas e foi pra casa. Lá chegada pôs o embrulho na sala-de-visitas que tinha um abajur encarnado e foi chamar a filha mais velha que era bem habilidosa, pras duas comerem o pato que ela caçara. E o pato era Macunaíma o herói. Porém a filhona estava muito ocupada porque era mesmo habilidosa e a velha pra adiantar serviço foi fazer fogo. A caapora possuía duas filhas e a mais nova que não era nada habilidosa e só sabia suspirar, enxergando a velha fazer fogo, imaginou: Mãe quando vem da pescaria conta logo o que pescou, hoje não. Vou ver. Desenrolou a tarrafa e saiu dela um moço bem do gosto. O herói falou:
— Me esconde! Então a moça que estava mui bondosa porque vivia desocupada desde tempo, levou Macunaíma pro quarto e brincaram. Agora estão se rindo um pro outro.
Quando fogo ficou bem quente a velha Ceiuci veio com a filhona habilidosa pra depenarem o pato porém acharam só tarrafa. A caapora embrabeceu:
— Isso há-de ser minha filhinha nova que é muito bondosa... Bateu no quarto da moça, gritando:
— Minha filhinha nova, entrega já meu pato que sinão enxoto você da casa minha pra todo o sempre!
A moça ficou com medo e mandou Macunaíma atirar vinte milréis por debaixo da porta pra ver si contentava a gulosa. Macunaíma de medo já atirou cem que viraram em muitas perdizes lagostas robalos vidros-de-perfume e caviar. A velha gulosa engoliu tudo e pediu mais. Então Macunaíma atirou um conto de réis por debaixo da porta. O conto virou em mais lagostas coelhos pacas champanha rendas cogumelos rãs e a velha sempre comendo e pedindo mais. Então a moça bondosa abriu a janela dando pro Pacaembu deserto e falou:
— Vou dizer três adivinhas, si você descobre, te deixo fugir. O que é que é: É comprido roliço e perfurado, entra duro e sai mole, satisfaz o gosto da gente e não é palavra indecente?
— Ah! isso é indecência sim!
— Bobo! é macarrão!
— Ahn... é mesmo!... Engraçado, não?
— Agora o que é que é: Qual o lugar onde as mulheres têm cabelo mais crespinho?
— ôh, que bom! isso eu sei! é aí!
— Cachorro! É na África, sabe!
— Me mostra, por favor!
— Agora é a última vez. Diga o quê que é:
Mano, vamos fazer
Aquilo que Deus consente: Ajuntar pêlo com pêlo, Deixar o pelado dentro.
E Macunaíma:
— Ara! Também isso quem não sabe! Mas cá pra nós que ninguém nos ouça, você é bem senvergonha, dona!
— Descobriu. Não é dormir ajuntando os pêlos das pestanas e deixando o olho pelado dentro que você está imaginando? Pois si você não acertasse pelo menos uma das advinhas te entregava pra gulosa de minha mãe. Agora fuja sem escarcéu, serei expulsa, voarei pro céu. Na esquina você encontra uns cavalos. Tome o castanho-escuro que pisa no mole e no duro. Esse é bom. Si você escuta um passarinho gritando Baúa! Baúa! então é a velha Ceiuci chegando. Agora fuja sem escar- céu, serei expulsa, voarei pro céu!
— Macunaíma agradeceu e pulou pela janela. Na esquina estavam dois cavalos, um castanho-escuro e outro cardão-pedrez. Cavalo cardão-pedrez pra carreira Deus o fez Macunaíma murmurou. Pulou nesse e abriu na galopada. Caminhou caminhou caminhou e já perto de Manaus ia correndo quando o cavalo deu uma topada que arrancou chão. No fundo do buraco Macunaíma enxergou uma coisa relumeando. Cavou depressa e descobriu o resto do deus Marte, escultura grega achada naquelas paragens inda na Monarquia e primeiro-de-abril passado no Araripe de Alencar pelo
jornal chamado Comércio do Amazonas. Estava contemplando aquele torso macanudo quando escutou Baúa! Baúa!. Era a velha Ceiuci chegando. Macunaíma esporeou o cardão-pedrez e depois de perto de Mendoza na Argentina quasi dar um esbarrão num galé que também vinha fugindo da Guiana Francesa, chegou num lugar onde uns padres estavam melando. Gritou:
— Me escondam, padres! Nem bem os padres esconderam Macunaíma num pote vazio que a caapora chegou montada no tapir.
— Não viram meu neto passar por aqui no seu cavalinho comendo capim?
— Já passou. Então a velha apeou do tapir e. montou num cavalo gazeo-sarará que nunca prestou nem prestará e seguiu. Quando ela virou a serra do Pafanacoara os padres tiraram o herói do pote, deram pra ele um cavalo melado-
caxito que tanto é bom como é bonito e mandaram ele embora. Macunaíma agradeceu e galopou. Logo adiante encontrou uma cerca de arame porém era cavaleiro: deu um sacalão, esbarrou o pongo e ajuntando as mãos do animal caído com um jeito forte fez o cavalo girar e passar por debaixo do arame. Então o herói pulou a cerca e amontou de novo. Galopeou galopeou galopeou. Passando no Ceará decifrou os letreiros indígenas do Aratanha; no Rio Grande do Norte costeando o serrote do Cabelo-não-tem decifrou outro. Na Paraíba, indo de Manguape pra Bacamarte passou na Pedra-Lavrada com tanta inscrição que dava um romance. Não leu por causa da pressa e nem a da Barra do Poti do Piauí, nem a de Jajeú em Pernambuco, nem a dos Apertados doInhamum, que já era no quarto dia e se escutava no ar rentinho: Baúa! Baúa! Era a velha Ceiuci chegando. Macunaíma pernas pra que vos quero pelo eucaliptal. Mas o passarinho sempre mais perto e Macunaíma isso vinha que vinha acochado pela velha. Afinal topou com a biboca dum surucucu que tinha parte com o canhoto.
— Me esconde, surucucu! O surucucu nem bem escondeu o herói no buraco da latrininha, a velha Ceiuci chegou.
— Não viram meu neto passar por aqui no seu cavalinho comendo capim?
— Já passou. A gulosa apeou do gazeo-sarará que nunca prestou nem prestará e montou num cavalo bebe-em-branco que é cavalo manco e seguiu.
Então Macunaíma escutou surucucu tratando com a companheira pra fazerem um moquém do herói. Pulou do buraco do quartinho e jogou no terreiro o anel com brilhantão que dera de presente pro dedo Mindinho. O brilhantão virou em quatro contos de carros de milho, adubo Polisu e uma fordeca de segunda mão. Enquanto
o surucucu olhava pra aquilo tudo satisfeito, Macunaíma pro melado-caxito descansar, amontou num bagual cardão-rodado que nunca pode estar parado e galopeou através de varjões e varjotas. Varou num átimo o mar de areia do chapadão dos Parecis e por derrames e dependurados entrou na caatinga e assustou as galinhas com pintos de ouro do Camutengo perto de Natal. Légua e meia adiante abandonando a mar- gem do São Francisco emporcalhada com a enchente-da-páscoa, entrou por uma brecha aberta no morro alto. Ia seguindoquando escutou um psiu de cunha. Parou morto de medo. Então saiu do meio da catinga-de-porco uma dona alta e feiosa com trança até o pé. E a dona perguntou cochichando pro herói:
— Já se foram?
— Se foram, quem!
— Os Holandeses!
— Você está caducando, quê Holandês esse! Não tem Holandês nenhum, dona!
Era Maria Pereira cunha portuga amufumbada naquela brecha de morro desde a guerra com os Holandeses Macunaíma não sabia bem mais em que parte de Brasil estava e lembrou de perguntar.
— Me diga uma coisa, filho de gambá é raposa, como chama este lugar? A cunha secundou emproada:
— Aqui é o Buraco de Maria Pereira. Macunaíma soltou uma grande gargalhada e escafedeu enquanto a mulher amoitava outra vez. O herói segui de carreira e enfim passou pra outra banda do rio Chuí. Foi lá que topou com o tuiuiú pescando.
— Primo Tuiuiú, você me leva pra casa?
— Pois não!
Logo o tuiuiú se transformou na máquina aeroplano, Macunaíma escanchou no aturiá vazio e ergueram vôo. Voaram sobre o chapadão mineiro de Urucuia, fizeram o circuito de Itapecerica e bateram pro Nordeste. Passando pelas dunas de Mossoró, Macunaíma olhou pra baixo e enxergou Bartolomeu Lourenço de Gusmão, batina arregaçada, pelejando pra caminhar no areão. Gritou pra ele:
— Venha aqui com a gente, ilustre! Porém o padre gritou com um gesto imenso:
— Basta!
Depois que pulando a serra do Tombador no Mato Grosso deixaram pra esquerda as cochilhas de SantAna do Livramento, o tuiuiu-aeroplano e Macunaíma subiram até o Telhado do Mundo, mataram a sede nas águas novas do Vilcanota e na última etapa voando sobre Amargosa na Bahia, sobre o Gurupá e sobre o Gurupi com sua cidade encantada, enfim toparam de novo com o mocambo ilustre do igarapé Tietê. Daí a pouquinho estavam na porta da pensão. Macunaíma agradeceu muito e quis pagar o ajutório porém se lembrou que estava carecendo de fazer economia. Virou pro tuiuiú e falou:
— Olha, primo, pagar não posso não mas vou te dar um conselho que vale ouro: Neste mundo tem três barras que são a perdição dos homens: barra de rio, barra de ouro e barra de saia, não caia!
Porém estava tão acostumado a gastar que esqueceu-se da economia. Deu dez contos pro tuiuiú, subiu satisfeito pro quarto e contou tudo prós manos já muito ressabiados com a demora. O caso afinal custara uns bons pacotes.Maanape então virou Jiguê num telefone e deu queixa pra Polícia que deportou a velha gulosa. Porém Piaimã tinha muita influência e ela voltou na companhia lírica.
A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu. É uma cometa.








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